a l m a r a d a

Conselho.

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Que não deixe-se a luz apagar. É preciso estar atento à maldade astuta do mundo; é preciso defender o próprio coração. É preciso ser mais áspero e mais duro; é necessária a força para tomar de volta, a petulância de roubar da vida a própria vida — lambuzar-se da amargura deste mel, perder-se na delícia deste fel. 
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olhos teus
os deuses de minha paixão

Youth.

A juventude brilha em suas vozes histéricas e seus passos pejosos, com seus copos cheios e seus corpos virgens, em espetáculos terríveis e dramas líricos. Incansáveis em suas danças, irrefutáveis em ideologias, impecáveis em seus vestidos, trajados em prata. Não temem o amanhã —  simplesmente não o conhecem. Moram na eternidade fervente do hoje, na certeza do sempre. Andam pelas ruas do infinito.

A festa lateja. Um casal franzino perde-se num ósculo flamejante, escondido entre as cortinas e a parede; espere e veja: logo surgirá entre os lábios cálidos um trêmulo "te amo". Não suspeitam das nequícias veladas que escondem-se no queimar da paixão — o verão vira inferno. Um vulto agita-se nos poucos metros quadrados da sala mal iluminada; entre saltos e giros, ri consigo, perde-se nas vibrações pulsantes do bailar único que movimenta seu corpo; não precisa de mais nada, tem a música. Amigos uivam e gargalham. Será que imaginam o que os anos farão? São muitas faces e todas têm a mesma cor: cor de vida.

A juventude vive incansavelmente. Precisa de mais. Quer tudo. Eles consomem o presente numa ansiedade faminta de quem insanamente deseja a vida: não ousariam perder um segundo sequer deste curioso espetáculo que acaba de começar; logo as cortinas estarão a se fechar. Riem desesperadamente. Choram infinitamente. Amam fatalmente. Não entendem. Estão muito ocupados com a hiperatividade urgente que incendeia o peito adolescente. Não querem o labor demorado da teoria — precisam da prática. São diamantes brutos e policromados, pesados, diversos e rutilantes, valiosíssimos — sequer suspeitam, mas serão tristemente lapidados aos golpes impiedosos da brutal experiência. Um piscar de olhos e foi-se a vívida paixão fulminante destes anos dourados. Infelizmente transformados. Envelhecer amarga os gostos, apaga as cores. Os anos passam e consigo arrastam algo bom, importante, essencial; um ponto de força, qualquer coisa energética que deveria ser constituição, crucial como a água no organismo, mas desgraçadamente se esvai, enfraquece pelo o cair das décadas. Este pequeno momento tem a fragilidade de uma pétala; quebra-se, morre. Fatalmente perde-se este movimento próprio, tal potência única. O tempo é ladrão. Furta silenciosamente esta joia de nosso coração. Torna pedra a carne, amarga o vinho da existência.  Amadurecer é estragar; a juventude é a doçura antes da putrefação, instante iluminado que precede o precipício apagado e solitário do cinzento ser adulto.

Arte {II}


Há arte em cada pedaço do absurdo deste mundo que piso. Não é a natureza a mais pura expressão da estética perfeita que busca a neurose do artista? O caos cósmico é disfarce, olhe bem: em tudo descansa a mais bela simetria, imaculável harmonia. A ordem universal é implacável; em tudo reside a proporção áurea almejada por um bom pintor. Tudo é arte. Não são todas as vozes melodias únicas? Também as paisagens não são mais que quadros vivos. Toda matéria produzida pela humanidade emocionada das mãos dos homens carrega toneladas de inspiração; a menor das criações exige alguma emoção, um tanto de força, a graça de uma ideia. A tudo que toca, o homem deixa um tanto de si. Até mesmo para a vulgaridade um interruptor necessita-se de inspiração. E não é tudo isso também arte, expressão? Há nos menores detalhes uma nuance artística.  E ousa dizer a voz de artista que sussurra dentro de mim: se tudo é arte, nada é — a generalização abole as nuances. Arte como ato parece não existir. Seria pura substância, essência, catastrófica deídade. Onipresente, onipotente. Não é coisa, não é fato; é espírito, inexplicável como deus. 

Fatalidade ancestral.

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Minha mãe andou só. Com passos firmes e ar sublime. Loba. Venceu demônios, reverenciou triunfos. Vigorosa e com o riso irônico de quem perpassa o inimigo. Mas só. Assustadoramente só.

Há antes de si uma linha toda trágica que poderia justificar os fatos. Sua mãe não pôde sequer ser viúva. Não foi nada. Desconheceu o amor, fugiu de alegrias. A opacidade em seus olhos de sertaneja a entregava: encarcerada em si, não viveu — foi tão somente arrastada, empurrada sem qualquer cuidado à desgraça abismática da vida. 

A mãe de sua mãe encerrou seus dias na escuridão frígida de um lamentável chalé; viúva, inatingível, foi-se em mortalhas negras. Deixou o mundo carregando sua cruz: o luto.

A solidão parece constituir o gene insondável que corre em meu sangue. Minhas mulheres não conheceram o amor.

Mas eu não.

Eu fujo.

Eu tenho o espírito vivo de minhas palavras como tenra companhia. Sento-me agora na mais calada resignação; tenho a presença da folha e da tinta, sentam-se comigo mil versões de mim. Eu sou minha melhor amante. Tenho-me profundíssima amizade. Da ancestralidade de quem me antecede, herdei também a força. E com tal força lapido a dureza da solidão, com a paciência de quem trabalha com ouro: a faço leve, dispenso os ônus; eu a maquio com cores melhores, pincelo tons mais brilhantes — transformo em solitude. 

Não-romance.

Pressinto a tua presença até da lua. Enxergo-te na confusão do espelho: tenho-te espalhado por mim inteira. Tua masculinidade participa de minhas curvas de mulher; tua marca aparece na turbidez destes olhos claros. Estás imerso em meus poros como um perfume barato — nada te anula de mim. Escreveste as linhas de minha face, desenhaste o que fui. Tuas digitais são queimaduras feitas com brasa acesa. Exauro-me corpo e mente em tentativas vãs de catarse. A tua doçura indigesta perturba meu sistema e eu te vomito do meu estômago só pela tortura de ter de te mastigar de novo. És veneno: contaminaste todo meu organismo, viciaste minha boca com tuas substâncias dolosas. Erva daninha: tomaste todo meu território. E agora? Eu imploro, num sussurro desesperado: sai daqui. Fizemo-nos mistura homogênea: como te afastar? Irremediavelmente ligados, tragicamente encaixados — preciso tirar-te de mim.

Sofro em riso com a solidez do teu afeto. Regojizo em nossas dores, cheia de ardores; como súdita — cega em saudade, perdida de amor —, eu adoro os teus velhos pecados. Contigo amo sangrando, gozo chorando. Minhas chagas abertas alegram-se ao açoite de teus dedos. A suavidade fere, este afeto dói; eu não quero a paixão arrependida, o carinho dos desesperados — eu não quero, mas eu preciso. Preciso?

As tuas mãos pesam e eu enlouqueço em um masoquismo escravo. Os olhares me sufocam. Este amor incomoda, irrita. Tuas arestas ferem minha pele. O magnetismo enlouquece-me o pensar: nenhum controle controle. Eu quero ir, mas não há maneira. Tu és ímã — arrasta, me cola, me junta. Eu volto.

Não suporto o peso incompreensível de teu ser quando presente e não aceito o vazio pasmo de tua ausência se parto — como compreender? Muito próximo, não o enxergo; se me deixas, eu nos perco. Se te afastas, arrastas consigo um fragmento essencial de mim; mas contigo, não sou. Qual a distância correta destas matérias? Qual a forma certa deste amor?

Últimas leituras de 2018.

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Admirável Mundo Novo
, Aldous Huxley 
Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance distópico de Aldous Huxley, que ao lado de 1984, de George Orwell, constituem os exemplos mais marcantes, na esfera literária, da tematização de estados autoritários. Se o livro de Orwell criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, em que a racionalidade se tornou a nova religião, em que a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários. Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos.

A verdade é que fui com muita expectativa à obra, por se tratar de um clássico. Esperei um enredo envolvente e paralisante, totalmente extraordinário. Mas, bom... Não é bem assim. É uma obra muito boa? É, sim. Mas há alguns poréns. Tinha tudo para ser impecável por sua história, que poderia ter sido trabalhada de forma melhor por Huxley. O próprio autor parece reconhecer isso, no prefácio de todo o texto. Particularmente, não me dei bem com a fluidez da leitura e com sua linguagem, que apesar de simples, não me cativou. Parece vazia. Muitas vezes, o livro dá voltas demais, fala muito sem dizer nada. Como já dito, é uma obra boa: um clássico não é um clássico à toa. Tenho minhas objeções, mas ainda assim, considero uma leitura necessária. Inteligente e reflexiva, nos acrescenta como pessoa e traz consciência sobre o mundo. Assim como outras distopias, nos dá a terrível sensação de prognóstico. É uma visão muito crua e incisiva, mas também muito pertinente. Fala muito sobre a tecnologia excessiva e seu poder aberrante e latente, da moral e da ética, pautas de extrema grandeza atualmente. Em Admirável Mundo Novo, vislumbramos uma sociedade infelizmente possível pelos trilhos que seguimos, mas também possivelmente reversível com o uso da inteligência e, sobretudo, da humanidade, essa coisa que nos habita e que por vezes subestimamos e esquecemos, mas que o livro vem nos lembrar da importância. É essa lembrança, esta reflexão sobre o que é, enfim, a humanidade, que torna a leitura importante, apesar dos pesares.


O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder
Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Moller Knag, garota a quem Sofia também não conhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.
O Mundo de Sofia estava parado na minha estante desde sempre. O livro pertencia à minha mãe, que me deu logo que foi despontando meu gosto pelos livros (ou seja, há bons anos atrás). Já havia dado algumas folheadas nele no passado, e quando o peguei para ler desta vez, nada sabia de sua história: sabia somente que tratava sobre filosofia e eu, que adoro o assunto, decidi dar uma chance para me aprofundar. Meu único e maior arrependimento é não ter lido antes esta obra tão cativante e bem pensada.

O Mundo de Sofia nos dá um panorama muito bom e bem geral sobre a filosofia, servindo de base e de incentivo para que se inicie um estudo mais aprofundado posteriormente. De brinde, temos a aventura misteriosa de Sofia Amundsen e seu mentor Alberto, história que nos surpreende e intriga todo o tempo enquanto descobrimos paulatinamente sobre o mundo filosófico. Além de oferecer um mar de conhecimento de forma altamente didática, o livro também é de uma leitura fluída, gostosa; somos cativados pelos personagens, ficamos presos, sedentos por mais informações  tanto sobre a história em si quanto sobre a filosofia. É um livro muitíssimo interessante, do tipo que deveria ser obrigatório a todos! Abre horizontes, estimula reflexões, ensina muito. Coloca-nos em contato com esse mistério grandioso que é a existência, faz-no exercitar a maior dádiva que nos foi dada: a consciência. Tornou-se, com certeza, marcante para mim. Certamente uma das obras mais importantes para meu desenvolvimento. 


Eu e Outras Poesias, Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos não teve sorte na vida: ninguém o compreendeu, ninguém o reconheceu. Passados 87 anos da sua morte, a verdadeira grandeza do poeta vem à tona com a publicação da 43ª edição da mais completa obra já feita, Eu & Outras Poesias, publicada pela Bertrand Brasil, com 217 poemas. O livro, lançado em 1912, já teve 42 edições.
Embora suas poesias tenham sido escritas há quase cem anos, os temas nela retratados continuam mais atuais do que nunca. A indiscutível força literária de Augusto dos Anjos coloca-o no mesmo naipe de poetas do quilate de Edgard Allan Poe e Charles Baudelaire. Eles introduziram, cada qual em seu país, toda uma temática centrada na dor universal: solidão, amargura, crise existencial e perplexidade diante das injustiças da vida. "Li o Eu & Outras Poesias na adolescência e foi como se levasse um soco na cara... Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor." (Carlos Drummond de Andrade)

Ler Augusto foi uma odisséia. Sempre li trechos seus soltos, pela internet ou em outros lugares; meu pai, grande admirador de sua obra, induzia-me muito a seus poemas, muito falava desse escritor. Não é pra menos: Augusto é, no mínimo, genial. Poucas vezes vi tanta impecabilidade num autor. Pois bem. Decidi, finalmente, agarrar-me a um livro seu. Comecei primeiramente há um ano atrás, início de 2018; pus-me a ler e envolvi-me muito profundamente em sua literatura. Justo por tamanha imersão, não consegui ir muito além da metade. Seu estilo é único e muito denso, o que me causou certo cansaço; não estava no momento certo para a leitura. Pois bem. Guardei o livro. No final do mesmo ano, decidi recomeçá-lo; dessa vez, tive êxito.

Ele parece passear por entre escolas literárias — simbolismo, romantismo, modernismo, parnasianismo... Quem saberia enquadrar tamanha genialidade? — e há uma obsessão por certos temas, cujos variam de acordo com a época. A morte, o sofrimento da mulher amada, o sol, as ciências, a decomposição e putrefação, a fragilidade da matéria, o mistério do espírito, a dualidade do amor. As trevas, a dor, a escuridão. A afetuosidade fraternal, a saudade do pai. Enfim. Cada fase com suas questões, mas quase sempre com a presença de um pesar insustentável, um nilismo duro, um ar trágico. O universo de Augusto é muito próprio, pessoalíssimo.  Ele é mórbido. É uma leitura dolorosa de se fazer, rebuscada, quase indigesta, tanto que a fiz muito lentamente para que pudesse degustar e digerir bem todo amargor peculiar do que li. Seus escritos têm sua marca indelével: poucas palavras e já sabemos de quem se trata. Dentro da métrica clássica consegue ser inovador, oferecer uma experiência única, sinestésica. Os poemas colocam-nos frente a frente com seu espírito — um espírito escuro mas interessantíssimo, estranho, bizarro, inigualável a qualquer outro. É uma honra tê-lo dentre o panteão de artistas brasileiros; gostaria que houvessem outras obras para contemplar sua genialidade (infelizmente, Eu e Outras Poesias é a única do autor).

Dom

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Brinco de escritora,

fantasio a verdade.

Tenho poderes sobre a realidade;

na imensidão da poesia

pinto e bordo como bem quero.

Faço luz e alastro a penumbra.

Apago o sol e monto a lua.
 

De nada valem os embrulhos e festejos, pouco importa o que te dei no vazio da materialidade; as tenras letras bordadas no silêncio frágil do papel foram meu melhor presente. O que escrevo —  de peito cheio e mãos tremendo, no desespero anestésico do amor — é o que tenho de mais meu. Cada palavra é viva, reflete meu organismo inteiro: tem olhos, boca, coração. O dicionário é minha jazida: cada sílaba vale ouro. Minha linguagem é muito densa para quem não tem nos sentidos também um pouco de delirante emoção.

Não entendes.

No infortúnio de um amor mal-educado, sofro com a apatia de teus olhos analfabetos; não podes me ler. Morro na sequidão inviolada do envelope que não quiseste abrir.

Poesia não-verbal

o sol fazendo-se homogêneo ao mar, fabricando ondas de ouro nas ordinárias manhãs de segunda-feira

o passear espontâneo dos fios de cabelo da menina sob seus ombros magros e nus

o susto que antecede o riso de dentes brancos e boca aberta

as rugas que enfeitam o corpo do homem de muitas décadas

a surpresa reativa dum ato inesperado

as cores que explodem no céu da tarde e partem logo depois para que venha a ebriedade negra da noite

a embriaguez animada da noite do centro, com suas luzes e sua música, sua gente e seu movimento

os pedestres que passam despercebidos

os imensos e possíveis, simples e extraordinários movimentos das mãos

o corpo humano

a música criada pela banda celeste de incontáveis gotículas d'água dançando sob nossos tetos na chuva da tenra madrugada

derme contra derme, língua contra língua

o choro

o corpo dançante e espontâneo na pista, banhado pelas luzes artificiais e ofuscado pela fumaça

a distração calma de quem não imagina estar sendo observado

a surpresa no peito de quem se descobre dominado pela paixão

unhas coloridas

cafuné

o riso vencedor de quem conquista o que quer

(...)

(em qualquer coisa cabe poesia
basta encaixar)

Relato trêmulo de uma existência desencontrada

Lembro-me de, ainda muito pequena, descrer do mundo. Nasci cheia de interrogações. 

— Eu estou sonhando? — perguntava a meu pai cheia de suspeitas, como quem faz uma seríssima investigação. Sua resposta não passava de um riso. Eu, outrora extasiada com as possibilidades, neste momento trancava-me em frustração. Tanta ansiedade me causara a realidade que, por vezes, caía num pranto agoniado e quase sufocava com as toneladas de perguntas que inquietavam-se em minha garganta. Havia na criança a urgência de respostas, queria desesperadamente entender; era criminal negar-me os porquês. Como podia uma pessoa — vendo, ouvindo e sentindo, tanto quanto eu —  levar com tamanho desdém o espetáculo da existência, não ousando o investigar, o apreciar? Alguém havia de me explicar.

Nestes anos inquietos, indagava eu todo tempo sobre as cores, as flores, os sons e as vozes; "e se este azul for verde?", "sinto ou penso que sinto?", "o que movimenta meu corpo?". Por vezes, cria estar sonhando, vivendo num delírio dentro de um delírio, experimentando um truque, um jogo. Via sobre mim tantos olhos coloridos; assistiam-me numa vigia atenta. Parecia ser personagem duma trama, passível dentro da epifania de algum gigante. Cheia de espanto, encarava com enormes olhos o universo embaçado que me cercava: era tudo um grandessíssimo absurdo. O passar dos ventos, o movimento dos pássaros. As tantas espécies, os milhares de gente. A imutabilidade do passado, a indomabilidade do tempo. Nascer, morrer. O piscar dos olhos e a vibração da voz. Não é mesmo isto tudo impressionante? Via dentro de cada coisa uma mecânica magnífica e muitíssimo minuciosa; muitas forças caem sobre tudo, muitos fios emaranham-se para compor a delicadíssima natureza. Quis destrinchar cada partícula da vida. Incontáveis perguntas me perseguiam; minha fértil mentalidade fora o perfeito habitat para demoradas especulações. A toda coisa reagia com o absurdo estranhamento de quem enxerga o maravilhoso. Admirava com o peito cheio de louvor, mas nada compreendia do mundo em que pisava; assim, fiz-me estrangeira. 

Rememoro tudo isso, incomodada ainda pela farpa da perplexidade, para dizer que este espírito jamais se foi. Muitos anos passaram desde a primavera de minha inocência, mas não pude me acostumar com a vida; ninguém jamais deu-me as respostas. A ciência diz-me muito pouco — quase nada. Mil filósofos tentaram, em vão, me falar. Leituras foram-me improfícuas, mal ouvi os discursos perdidos e os dizeres confusos de quem tentou colocar-me nos eixos: nada jamais me explicou a realidade. Suspeito que esta exista. Suspeito principalmente que eu exista. E guardo — como tudo meu guardei nessa vida: cheia de cautela e com muitos ciúmes — toda dúvida; foi o que me restou. Infindas interrogações, nenhum ponto final. Passo como um vulto, sou espectadora. Tento em vão me acostumar. Não reconheço as veredas desse planeta; pareço ter vindo de longe. Levem-me a Marte, ao Japão ou ao inferno; pouco importa-me o destino, mas me levem. Eu não sou daqui. 

Literatura.

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No silêncio gélido da noite,
na solidão do cômodo quente,
abro o livro
- um espelho
(o melhor dos amigos).
Séculos nos separam,
ideias reconectam.

Reconheço-me nas palavras de outros,
eu estou naquelas páginas;
com a surpresa da descoberta
vejo-me impressa;

Da solidez das páginas amareladas
saltam espectros imateriais
e meu quarto vazio enche-se de vozes;
meus filósofos falam de mim,
os escritores aconselham os meus sonhos;
toda a gente sabida dos meus exemplares
todos os autores de uma vida
vêm fazer-me companhia.

Eu sei do desconforto Clarice,
eu vejo a verdade de Kant.
Reconheço-me na dureza de Machado,
bem compreendo a mutabilidade de Heráclito.
Tenho em mim o afeto de Gabo,
deliro com a crueza de Guimarães;
os medos de Poe também são meus.
Eu quero a fatalidade de Pagu,
mostrem-me o Mundo de Sofia;
vejo-me na poesia tropicalista,
os anseios do modernismo parecem os meus.

Já não sei se leio ou sou lida;
só a literatura me compreendeu.

Ano novo.


O céu explode em luzes; tudo inunda-se em som e cor, tudo cheira a riso e fé. Os fogos anunciam mais um aniversário do planeta; o reinício de um ciclo faz o mundo crer na magia do novo. Esta insistente esperança flutua soberana como uma ave branca sobre todas as cabeças nos primeiros instantes do ano solar: é irresistível deixar-se acreditar. Numa ingênua expectativa, evoco em voz muito baixa o melhor. Anseio novas tramas. Eu, que creio energeticamente no poder divino das palavras, escrevo e chamo o mais doce para este ano. Que venha tudo de maior. Quero a liberdade. Porque liberdade é também paz — e minha busca incessante é pela paz. Quero tão somente ser, num delicioso vazio de impulsos desesperados, num estoicismo confortável. Não inquietar, não esperar, não depender. Que o cosmos me guie. Sujeito-me às forças do universo sem maiores represálias: que eu simplesmente aconteça.

Eu quero beijos e eu quero vozes. Quero sons e quero toques. Eu quero rua. Quero tintas, quero letras. Quero flores e quero dores.  Eu quero o amor — porque há neste enigmático presente todo o sentido da existência. Eu quero vida.

Vislumbro dias frescos e intocados, mais claros e mais azuis, cheios de chances e boas horas; anseio belos caminhos. Minha alma de borboleta se atiça; já não caibo nesta caixa estática, me é pouco a constância do chão. Quero outros jeitos, outra forma. Quero a imensidão dos ares, voar por novos meses, quero explorar cada segundo. Quero a essência da mudança. O quadro manchado da vida torna-se tela branca: é hora de reinventar.

Velho, novo.

Eu não tenho palavras para o que foi 2018. Ainda assim, tentarei, já que o conjunto dos doze meses que passei são dignos — e como são! — de nota. Além de tudo, já me é tradicional escrever sobre os anos que vêm e vão. Esse ano, muito descobri. Acho que foi meu ano da descoberta. Do mundo, dos outros e de mim — eu sou sempre minha jornada mais intensa.

Eu ressignifiquei e reaprendi a solidão. Acho que todo ano passo por isso, cada vez de uma nova forma. Mas tudo bem. É sempre um processo válido que, no fim das contas, eu gosto. Essa sensação peculiar me perseguiu por toda a vida: sou só. Estive sempre só. Nunca pertenci e penso que jamais pertencerei. É uma emoção forte; ergue-se a minha frente como um gigante, não tem rosto nem cor, mas sua aura assusta. Assusta porque é cheia de entrelinhas, porque é mistério, porque é difícil; mas não necessariamente é mau. É meu monstro de estimação; domestico, o faço amigo, transformo. Apesar dos pesares, amo a solitude.

A ansiedade amargou minha língua muitas vezes, mas não pôde me vencer — que orgulho. Tanto orgulho tive de mim esse ano. Da força que tive, de quem me construí. Compreendi muitas coisas: vi o que devia ou não estar, os porquês de ser. Tenho tentado arrumar a casa. Dei fim a muitas coisas antigas que já não me cabiam mais e iniciei novos ciclos onde me encaixo lindamente. Acabei um relacionamento de anos e houve nisso um impacto em mim que me vi perdida. Talvez eu ainda não tenha me achado, mas tenho aberto caminhos. Os anos pesam como chumbo e a ausência é um fardo difícil de ignorar mas, bem, há sempre formas de passar pelas vielas apertadas dessa vida. O amor se transformou. Com as peças desse namoro descontruído, surgiu uma amizade muito bonita com meu ex futuro marido.  Outras relações se foram também. Várias se transformaram. Algumas ficaram. Muito aprendi sobre amizade, esse afeto tão bom e poderoso, essencial. Sem amigos sobrevivemos, mas com eles, vivemos tão melhor. 

Pessoas importantes entraram em minha vida e me trouxeram luzes inspiradoras. Eu conheci muita gente e gostei disso — o humano é o meu bicho predileto. Novas bocas. Novos corpos. Novas vozes.  Vi o por do sol pela primeira vez (o espetáculo mais extenuante que já presenciei). Descobri a noite. As palavras me serviram de leito, aconchego. Li, escrevi. Eu criei muito e vi na escrita tantas possibilidades que me salvaram e me revelaram. Bati meu recorde: treze livros em um ano. Poderia ser mais? Sim. Mas já é algo. Os meus autores favoritos nunca foram tão bons amigos. A literatura foi um fôlego, um sopro. A arte tem um poder indizível. 

Outro lado muito ativo em mim foi o político. Votei pela primeira vez. Coincidentemente ou não, a política — coisa que sempre me atraiu — foi muito presente em meus dias e em minhas pautas. Foi interessantíssimo me conectar com esse lado que tem tanta importância. Cada mínimo movimento de nossos corpos trata-se de política e se você toma atenção para este fato, tem muito a perder. Fui a uma manifestação, inclusive. Arrepiei-me com o poder do coletivo. Foi uma experiência muito válida. Há uma beleza imensa na luta pelo que se acredita, uma ideia é uma potência energética — e uma ideia exponenciada é de um poder inigualável. E é nesse poder que me apoio para ter fé no amanhã desta pátria amada, Brasil. Um castelo há de ser erguido sobre as ruínas desse caos político-social. É uma questão de conhecimento. E conhecimento é questão de tempo. Resta-nos optar por agir e reagir. Tenhamos paciência. Há de se ter fé, também. Fé em tempos de luz. Sei que virão. 

Descobri o poder de meditar. Ainda tenho muito o que aprender e exercitar, mas isso muito me beneficiou. A meditação constrói para você um campo minado no meio da insanidade do passar do tempo, da ferocidade da ansiedade — este fantasma nos meus dias. Meditar protege. Esvazia do inútil para dar espaço ao importante. Meditar abre caminho pras verdades; no silêncio, este que tenho aprendido a manusear, distanciando-me de todos os ruídos que confundem e distanciam o Eu do corpo, muito descobri. Falar é vão. Só o silêncio revela.


Achei em mim pontos fracos, imaturos. 2018 doeu. Mas esta dor me fez buscar rotas para a cura. Eu me perdi. Mas tenho me encontrado; cada dia um pouco mais descubro como ser mais eu e me mino das outras coisas. Quero crescer. Desesperadamente quero viver. E acho que é por isso que 2019 tem me empolgado. Há no meu coração essa necessidade de recomeço que parece surgir com o início de um novo calendário. 


Apesar do réveillon ser uma das minhas datas favoritas do ano — se não a preferida de todas —, nunca tive no ano novo o alicerce de mudança. É que eu sei que a mudança está dentro, ocorre aqui, prontíssima para implodir assim que eu decidir. Não é necessária uma data para isso; basta um movimento de minha escolha. De qualquer forma, 2019 em particular parece guardar qualquer coisa que eu não saberia dizer. Como sentir o que habita o imprevisível futuro? Não sei. Sei que estou sentindo. Pouco tenho de determinista: creio no poder de escolha, de construção (e desconstrução) do futuro. Portanto, fico curiosa com 2019. Pois, pela primeira vez, a sensação que tenho é que o ano está todo construído, esperando que eu o adentre e passeie pelos seus meses. A vida até então parecera jogo, brincadeira.  Agora parece começar a ficar real, sólida, séria. Virei gente. Não sei. Aproximo-me do novo ano: não sei se ele vem ou eu vou, mas logo o alcançarei. E não tenho certeza alguma para ele — ainda bem; que os deuses me livrem da certeza, sou uma amante da surpresa —, mas tenho desejos, ânsias. Pois bem. Que seja meu ano da produção. Eu quero ser produtiva, ainda mais ativa. Quero dar vida à minha arte — minha palavra, minha fotografia. Quero pintar — mesmo mal, mesmo de forma infantil. Para mim, faz sentido, então eu quero. Quero estudar muito, aprender muito, me dedicar com afinco — lembrando que eu nunca vou conhecer tudo e fazer dessa consciência minha catapulta para que, mesmo não alcançando o tudo, eu consiga o máximo possível dentro dos meus dias humanos. Preciso dedicar tempo às matérias exatas que ignorei por toda minha vida letiva mas que agora merecem atenção. Espero passar na faculdade que eu tanto almejo há tanto tempo e iniciar, assim, a trilha que sempre desejei e percalçarei por todo resto minha vida. 


Quero ler mais, ainda mais; que a literatura me engula em todas as suas formas. Assistir bons filmes, descobrir músicas. Ir mais ao cinema. Entrar em contato obras que me deem o prazer de viajar para outro mundo mesmo estando imóvel. Quero ler mais, ainda mais; que a literatura me engula em todas as suas formas. Quero dar início ao meu livro (mesmo que só no campo das ideias. Ele precisa começar a existir). Quero estudar mais alguma língua. Quem sabe eu não possa também aprender algum instrumento, finalmente? Muito quero a arte. Quero conhecer gente e explorar os cantos desse mundo. Mas, sobretudo, quero conhecer a mim. Seguir desvendando o que sou, o que tenho, o que me tem. Chegar perto, bem perto, me beijar e amadurecer esse relacionamento tão essencial que é o meu comigo mesma. Espero aumentar minha rotina de meditação, conseguir meditar com mais qualidade, por mais tempo. Quero também enfeitar minha pele com as tatuagens que planejei e dar sentido ao libertéque pretendo me pintar me ver cada vez mais livre, dependendo de menos, sendo mais. Quero calma; dar fim aos exageros, aos desesperos, às compulsões. Quero estar em paz. Que os 365 dias que estão vindo sejam de plena luz.



Recife.

Meus olhos brilham de surpresa, veem como turistas à velha novidade que traz a arquitetura vetusta dos prédios do Recife. A cidade é uma tela, pintura em movimento que assisto cheia de encanto. As madrugadas ébrias passam como um filme sob sua luz amarelada; imersa no charme de seus tons desbotados tomados pelo charme da antiguidade, posso ver as veias da cidade. É matéria viva, movimenta-se; mexe-se substancialmente, junto aos andantes únicos das vias. Sou influenciada pelos seus ritmos; já confundo o que é meu com o que é seu. A cidade tem força, tem voz. Eu a ouço. São ruas conhecidas como a palma de minha mão, enfeitadas pela história de muitos verbos que ainda ecoa por esses becos; há memórias veladas em cada canto daqui. Meu coração bate no compasso do maracatu. Tenho o ritmo da água destes rios. Estive aqui em todas as vidas. Reconheço seus ares como uma velha amiga. Eu moro em cada uma destas esquinas.

Ana de amor.



Hoje fui amada. Vê? Não há mais nobre sensação. Embalei-me em risos e comi olhares. O amor me salvou. Fez oásis coloridos no inferno rubro do deserto, abriu caminhos no vazio. Na inércia de um corpo quase morto, o amor causa um choque. O amor acorda, mexe. O amor é criança: nos chama para brincar. O amor é namorado: nos tira pra dançar. É o ápice da existência humana. O amor é linguagem universal, o único idioma possível. É a música que eu quero ouvir, o instrumento que sei tocar. É tudo o que eu sei falar. Está em tudo que vejo; substância onipresente, força de movimento. Regência universal. No macro e no micro, o amor tudo alcança. Eu respiro amor. Se por excesso soo romântica, você me perdoe. Eu sou toda amor.

Império

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A boca fala e fala, inunda os ouvidos de trivialidades; mas os olhares cantam e conversam, gritam muito mais. Pouco me importam as vozes falhas, as falas lapidadas. Eu quero o oceano de significados que entregam os olhos. Dizer é superficial. Mais me interessa a vulnerabilidade da expressão. Eu gosto mesmo é do diálogo energético entre estas duas duas jóias anatômicas, instrumentos fatais. No espaço entre os olhares, um império é formado.

Dúvida

Você pensa em mim? Diz. Conte-me: quais cores tenho eu em sua mente? Narre as histórias que eu participo. O que você acha? Destes olhos, destas mãos, desta pele? Diga-me o que sou. Qual sua opinião? Em quantos fragmentos eu me parto? Por quantas noites te assombrei? Fale-me dos seus sonhos, amor. E revele, finalmente, se eu deles participo. O quanto dói a saudade em teu peito? Não me torture em tanto mistério. O quanto arde teu tesão? Eu gosto de ouvir. Qual a medida deste amor, se há amor? É tão tênue a linha entre as possibilidades que me afogo em hesitações. Eu sou muito ou quase nada? Deixe eu ver por seus olhos. Qual meu peso no seu coração?

Numb

Neuroses destroçam-me a mente; o cansaço acaba com tudo que há, até que não me reste nada além deste vácuo assombroso e a sombra de um alguém aniquilado pela existência. As palavras dissipam-se antes de virem à tona; escrever já não cura. Não há o que estanque esta sangria que deixa-me lassa, oca, vazia; vomito numa agonia dilacerante tudo que um dia foi meu. Os afetos vão-se ralos por entre os dedos. Tudo perdi. O amor secou. Foi-se a ternura e perco até mesmo a força do colérico rancor. São opacas as imagens, minha pele já não arde. Que fazer? Não há reação. O cansaço carcome até mesmo minhas palavras. Já não há sequer o que ser dito. Falar é vão. Trancafio-me nas entranhas de um silêncio agudo que há de me embalar. Tudo é breu.


Contraste.



O inferno é desfrutável porque há depois dele o alívio do paraíso. O prazer de voltar faz válida a agonia da partida. A paisagem do fim torna deliciosa a exaustiva jornada. A vida é dupla — mesmo quando não enxergo seus contrastes, estão ante as névoas da embriaguez emocional as dualidades — martírio e conforto, delírio e paz, viver e morrer. Eis o equilíbrio da existência. É como deve ser. A tristeza é sempre um pouco bela e há um tanto de desgraça na alegria. Não temo a dor porque quero descobrir o prazer.

Reconhecer.

Venus

Perdi-me. Esqueci-me do quê sou feita; onde começo, quais minhas linhas? Ninguém me diga. Eu quero redescobrir. Eu sou sempre minha trilha mais árdua, mas é esta a jornada que vale-me a vida. Nas entranhas do silêncio, busco pistas de mim. 
A solidão é minha sentença infinanciável. Não fui feita para ninguém senão para meu próprio desfrute. Estrangeira, parida noutro astro, vim de longe — eu não sou daqui. Não me encaixo: vago. À mercê.

De quê?

De mim.

Estou a passeio. Um tanto perdida, tudo confundo, titubeio. Nada me alcança. O amor telúrico é para mim mera superficialidade — eu, que só conheço o extremo do afogamento, tenho asco aos mares rasos. Busco mais. De onde venho, não há eufemismo: é tudo hipérbole. A apatia destes rostos me espanta. As normas deste mundo foram-me sempre incompreensíveis — minha única linguagem é a liberdade. Não há sentido em minhas palavras incongruentes; eu sou ilegível. O universo não me conhece e nada sei das entranhas do cosmos que me embala; sou levada onde o vento vai, minha bússola falha. Não entendo, tampouco sou entendida. Na tentativa insolente de caber, sufoco em espaços muito pequenos. Traço diariamente a trajetória de Sísifio; existir é tarefa implacável que esgota-me as energias. Esvaziando-me em vãs tentativas, torno-me oca. A paisagem é estonteante mas já não sei seguir sua trilha árdua. Eu quero ir embora.

Intransmutável.



A limitação leva-me a loucura: anseio criar qualquer coisa diferente de mim. É sempre mais do mesmo. Como fugir de si? Sempre este corpo e estas mãos e estas lágrimas. As mesmas palavras e as mesmas pautas e as mesmas dores. Canso-me desta carne, desta mente. Inquieta demais para ser uma, desejara eu partir, tornar-me outra coisa, transmutar-me em ar, virar poeira cósmica, ser bicho ou ser outra. Descobrir outros mundos, ver além. Experimentar outra pele, outros olhos e outros olhares. Preferiria ser muitos, ser várias, ser todas. Mas sou irremediavelmente a mesma, com o mesmo coração e eternamente a mesma alma. A mesma com esta ânsia e este riso nervoso. A mesma com tanta paixão, nenhum medo e toda solidão. A mesma — e é isto conforto e terror. A mesma.

Vísceras.


Amo-te em todos os lugares — o peso do amor é excessivo para o coração. Amo-te com meus rins e pulmões; torna-te o ar que me aviva e toda a água de meu organismo delirante. Amo-te na língua, sinto-te na fragilidade da derme. Meu amor espalha-se, toma toda minha estrutura; faz-se energia atômica, vira hemoglobina. Amo-te com o estômago e com o fígado, amo com todos os órgãos e em todas as células, com todos os ossos e todas as entranhas, na forma mais visceral de amar. Guardo o sentimento mais animalesco para te apresentar.

A Enxaqueca.

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Antes, houve dias de muito deleite. Após uma semana tradicionalmente insípida de dias pecos e acinzentados, encontrou-se em ridículo estado de graça: parecia ter atingido uma soberania espiritual indizível. Acordou assim, em plena perfeição, num sábado que, apesar de enevoado e frio, pareceu-lhe muito agradável aos sentidos. Saiu da cama a passos leves, flutuou como um pássaro pelo quarto de poucos móveis, na liberdade de quem já não anseia qualquer coisa senão o estreito agora. O coração pulsava lento, quase parando, repousado num vazio deleitoso jamais experimentado. Riu alto e largo, sabia de tudo.

Sabia o quê?

Bem, só sabia que sabia.

Carregava agora um segredo no mais recôndito de seu ser, tão bem velado que escondia até de si próprio: o possuía, mas não o via. Segredo enorme, admirável, de tanta luz que encandeava e se escondia atrás de seu próprio brilho, mas que clareou toda a existência daquele homem outrora perdido. Naquele despertar, conheceu Deus —  o Deus cujo sempre duvidara se apresentou, de onipresença benigna e aura luminosa: sussurrou em seu ouvido sensível particularidades, palavras etéricas e contentes, verdades cósmicas, promessas universais. O entregou aos braços de uma paz límpida.

Naqueles dias, rodeou-se de amores, fez-se ímã para as amizades. Foram dias de beijos molhados, sóis quentes e ventos frescos. Visitou seus pais, foi a três festas, planejou uma viagem à Índia e quis casar. Os dias passavam coloridos. Parecia estar entorpecido. Até o mais maçante dos ofícios foi realizado com satisfação; cantarolava disposto pelas ruas enquanto dirigia seu corpo à labuta diária, recebida agora não com estresse, mas com ilimitada condescendência. Teve sucesso em seus feitos e esbaldou-se numa produtividade que rendeu estonteantes elogios, dos quais se gabou com ostensividade.  Discursava alto, enchia a boca de palavras rebuscadas e de sentido festivo. Estranharam-lhe os conhecidos; amigos o indagavam por qual bênção havia sido inundado e não houve quem não notasse o novo esmalte que o envernizava. Entretanto, não pôde responder as perguntas que o cercaram. Não possuía palavras para essa alegria indominável, injustificável a todos, inclusive a si. Fora sempre tão insosso e agora ardia neste sentimento aceso. Surgira repentina, intrusa e abrupta; cegou e o acompanhou como um cão guia dourado. Não incomodava-se em pensar nos porquês do sentimento; nestes momentos, poucas coisas importavam além da própria glória.

Até que tudo se dissipou. O júbilo maculou-se em tinta escura e, subitamente como a maravilha, a desgraça decidiu fazer visita. Da mesma forma inexplicável que vieram aqueles dias brilhantes, lhe apareceu, num domingo insuportavelmente ensolarado, uma dor assombrosa que arrastou sua alma ao limbo. Despertou assim, num desespero impetuoso: ergueu-se dos lençóis e pôs, numa agonia indomável, as duas mãos sobre a cabeça que parecia ser atingida por mil golpes —  queria de qualquer forma acabar com aquilo. Tornou a pender para trás: sua energia estava voltada inteira àquilo que parecia lhe possuir, não tinha meios sequer de conter seu próprio corpo. Forças pareciam se apossar de seus olhos, que ardiam como se visitassem o inferno; não podia se permitir abrir as pálpebras pesadas. Uma náusea insuportável enchia a boca inerte de saliva, fazia precipitar um vômito que não veio nunca. Pôs os dedos na garganta agoniada, buscando aliviar seu ventre ouriçado, expelir o que perturbava a ataraxia de sua vida, mas não provocou muito mais que uma tosse. Um bicho dos mais bestiais parecia se apossar de seu sistema nervoso inflamado. De lábios entreabertos, com a testa suada e lunarmente pálido, tentava, sem êxito, compreender o que o atacava.

Depois de minutos agoniados — que mais pareceram longos anos de espera —,  pôde aliviar-se minimamente, o suficiente para retirar-se da cama. Andou em pernas bambas e encarou o dia com austera dificuldade: a tudo via e sentia de forma trêmula. Quem o via naquele estado lânguido pensava ser apenas sua felicidade latejante o adormecendo, como ocorrera até o dia anterior.

Assim seguiu por alguns dias: entorpecido por uma dor quase ensurdecedora. Alguns dias, parecia esvair-se por alguns curtos momentos de apaziguamento que o faziam até sorrir num alívio exasperado da mais pura ilusão. Logo voltava a sentir um buraco negro expansivo dentro de seu crânio, acabando com seus ossos, rompendo seus tecidos, alargando-se e destruindo toda sua estrutura de homem. A dor provocava vômitos inesperados e mudanças bruscas na pressão arterial, dava vertigens, deixava-lhe lasso.

Buscou doutores e clínicas que em nada ajudaram a sair do abismo de enxaqueca que consumia suas horas; não disseram qualquer coisa os exames e investigações que foram feitos, e receitaram-lhe medicamentos que dissolviam-se como bala em sua língua, sem provocar efeito algum senão um amargor típico. Assim, arrastaram-se semanas numa rotina tortuosa, onde acordava-se e seguia como um zumbi, com um gosto ácido na garganta e um enjoo constante. Compreendia cada vez menos o que comunicavam os outros humanos, surdo por um zumbido que alterava sua audição e cego por uma pseudo-catarata que lhe embaçava o ver. Passava como um vulto, deixando os que o rondavam confusos, trancando-se numa bolha impenetrável de sofrimento, que findava por privar até ele de si próprio.

O pesar louco que o tomava era implícito e seu dono não tinha resquício de voz algum para alardar sobre o que vivia. O ouro de seus dias mostrou-se fraudulenta lataria, e o brilho deu lugar a uma opacidade enferrujada. Não ousaria oxidar o egoísmo da vida alheia com sua desintegração, tampouco eles poderiam cogitar abalar-se por qualquer um. Os outros não possuíam tempo para enxergar a alma do colega; tinham os olhos tapados pelo véu de pressa e indiferença que acomete os habitantes deste mundo. Assim, acabou por padecer num leito solitário. 

Quando julgava compreender e acostumar-se com o incômodo, este parecia piorar no dia seguinte. Até que, num desses casos, onde a cefaleia suavizava-se quase por completo e dava-lhe uma noite de esperança, acordou imobilizado. Não pôde sair de seus lençóis ao amanhecer. Ardia numa febre com espasmos que tornavam aço os músculos, parecia o derreter abafado em sua própria temperatura. Quis ligar para qualquer um mas não pôde: sua força parecia ter sido extraviada para longe de suas mãos e até sua voz falhou. Balbuciava, salivando, definhando sozinho sob a cama úmida pela sudorese inevitável que o acometia. Quedou-se num estado petrificado, impecavelmente estático, sem emitir um mínimo ruído. Quis que aquela dor não o ouvisse e despercebesse sua existência; quis que, ludibriada, sumisse daquele cômodo ao pensar que não houvesse quem incomodar. Sua tática obstinada não funcionou: pareceu favorecer que aquele monstro pusesse as patas em suas têmporas e lhe sugasse, como um vampiro, a atividade cerebral. Tornou a se inquietar, mexendo-se de um lado para outro, sem encontrar posição que o favorecesse. Tentou até levantar, mas não chegou sequer a concluir o ato: seu corpo pesava toneladas incapazes de serem erguidas. Sentia-se enjaulado no aperto de sua própria carne, completamente impossibilitado, absolutamente sufocado numa paralisia invencível. Apesar de comandar seus movimentos, estes não saíam da possibilidade das ideias.

Conformou-se com o mínimo movimento que lhe era possível: o dos olhos. Pôs-se a chorar, num pranto rijo e mudo que trancava sua glote, que mais sufocava que ajudava a desabafar. Era absolutamente impotente àquilo que transcendia qualquer outra enfermidade. Sua cabeça era uma chaga aberta atazanada por moscas carnívoras, entrava em putrefação mesmo em vida. As lágrimas umedeciam a boca seca e trêmula, ele mordia os lábios com um ódio doido que fez sangrar a boca roxa. Todas as outras sensações sob a derme tornavam-se nulas comparadas ao incômodo inigualável que lhe desfalecia. Lambeu com indiferença o sangue carmim e quente que manchava e contrastava com a face fria, e num urro descontrolado, de olhos bem selados, deu, finalmente, voz àquilo que arrastava-o para o inferno: pôs em sua manifestação gutural os resquícios de força que ainda o acometiam e o som da aflição ecoou por toda a casa, por todo o prédio, por toda a rua. O grito trazia uma angústia ímpar, incompreensível por qualquer outro ser; não haviam palavras para aquilo e o brado ressoante e fúnebre era a única vocalização possível. Cessou por falta de fôlego; silenciou-se, enchendo o peito de ar, numa tentativa frustrada de recuperar qualquer sensação restauradora. Nem mesmo seus pulmões trabalhavam bem. O oxigênio parecia mais denso, dificílimo de inspirar. Entreabriu os lábios para facilitar o respirar e tornou a abrir as pálpebras cerradas: teias brancas embaraçadas cobriam sua vista real e tinha no rosto um formigamento, causado pela certeza de uma aranha que movia-se por sua face. Tentou afastá-la, mas o asqueroso bicho parecia saltar pelo ar e voltar a incomodar num lugar inalcançável por suas mãos. Sentia suas pequenas patas passeando e deixando um rastro peçonhento, impregnando-o de um odor fétido que inspirava com nojo. Arfava pesado com a agonia da sensação. Em seus lábios entreabertos, o repugnante aracnídeo chegara e caminhava, sem que ele nada pudesse fazer a respeito; sentiu pequeno animal entrar em sua boca, pousar em sua língua, tão pútrido que o fez, finalmente, vomitar. A asquerosa substância que saiu de si transmutava-se de verde ao violeta e viu nela todos os seus órgãos expelidos em versões reduzidas. Um minúsculo coração, rins, pulmões, tudo minimizado ao tamanho de uma unha. Arregalou os olhos, em pânico. Compreendia cada vez menos. As teias engrossavam e tapavam-no a visão, que logo tornou-se tão somente um plano liso e branco. Já não fazia diferença se abria ou fechava os olhos: o vácuo era o mesmo. Emitiu, neste momento, outro grito; apesar deste sair muito vivo por suas cordas vocais, seus ouvidos já não captavam som algum. O desespero da surdez gerou uma sequência de gritos estarrecidos e indeléveis,  que logo levaram a própria voz à fadiga. No óbito dos sentidos, não houve resolução: o estado carcomeu-lhe o cérebro e levou gradativamente a sua capacidade de raciocínio, até que o homem tornou-se nada além de um corpo mofino cujos sentidos só alcançavam um paroxismo que, de tão intenso, padeceu nele o mais resiliente órgão humano: a alma. Já não existia nada ali que não fosse dor. Concluiu-se a penalidade por uma felicidade criminal: enveredou pelo caminho da loucura.

Arte.


Arte é parto do desejo nato de criar o que há de invisível dentro de cada um. É esse vômito inevitável, essa ânsia voraz e necessária. Necessária, sim. Engana-se quem a diz inútil: a arte é necessária ao extremo. É o dom de vivificar  — e a existência não se basta existência: pede vida. Pede pulso. Pede cólera. Pede paixão. Há na arte tal materialização dos afetos que nos mantém em harmonia com eles: nem nos faltam e nem nos excedem. Equilibram-se dentro do espírito. Viram arte. É deleitável. Bonita. Bela!, mas não por ser estética. A arte é linda porque é humana. E há nesta criatura telúrica o mais misterioso éter, a mais vândala extraordinariedade da natureza. Tão incrível é que torna-se quase impossível, irreal. A realidade é um absurdo. O mundo físico é um delírio e a consciência é uma incógnita fantástica. Não percebe como a vida parece feitiçaria, hipnose, um truque? Pois então criemos arte, que tanto abranda quanto extrema tudo isso que vos digo. 

Mais um ensaio sobre o demônio da ansiedade.

A delícia maçante da espera. Esse interesse furioso pelo porvir, essa ansiedade velada e intrigante. As linhas de minhas mãos mostram caminhos, as possibilidades vibram, loucas para serem. A força do amanhã me exaspera; tal pulsão mata fragmentos meus a todo instante e faz assim eu sentir-me um tanto mais viva. A soberania que só o futuro tem — que dissipa-se no instante em que este torna-se presente (porque a magia só dura enquanto é ideia) —  é tanto fantástica quanto cruel em sua grandeza. Não obstante, persigo o momento seguinte com sede insaciável por mais; anseio pelo que habita o tácito imprevisto, quero o que é ainda maior que o momento presente. Inegavelmente, o agora é a maior das dádivas entregues aos mortais: é tudo o que há. Passado e futuro são sombras. Não existem: temos este instante. Ainda assim, humana insaciável que sou, numa teimosia indelével, procuro além. Quero mais que o agora. O depois seduz — sem nem mesmo existir — e eu me rendo à dor pontiaguda e orgástica da expectativa.

Galáxias terrestres

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Os dados demográficos me avisam: existem mais de sete bilhões de mistérios a serem desvendados. Incontáveis cores inéditas a serem observadas. Há em cada cérebro humano um milhão de planetas formando-se, afoitos; possibilidades únicas de vida em cada sinapse. Os nervos são nebulosas em ativação. Emoções são matéria escura em sua impenetrabilidade. Pensamentos têm a luz e o peso de mil sóis. O cosmos habita dentro de cada singularíssima pessoa e manifesta-se, travestido em biologia. Com interesse de astrônomo, divago com ansiedade sobre o que habita o outro. Reduzir-me-ia a um tamanho microscópico e voar para dentro dos pedestres abstratos: quero ouvir todas as mentes mentes, conhecer todos os timbres. Deixe-me possuir suas histórias. Todas as almas me interessam.

The big bang




Tão grandiosa foi a explosão mãe do cosmos que suas ondas ainda ressoam no presente. 

Tanto te amei que ainda hoje sinto teus ecos no atual tempo-espaço de mim. 

Você é meu big bang. A catástrofe necessária. Eu começo em nosso fim.

Ideia.

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Bendito tudo o que não sei — o que me traz o espanto, a maravilha do novo; o desconhecido me palpita. É um prazer estupendo e inomeável o espetáculo do nascer de uma ideia nunca provada: vai desbravando um território outrora inóspito, clareando espaços mentais completamente ignotos. Surge repentina, sai do inexistente e torna-se pertencente à consciência, entranhada ao encéfalo pensante, acompanhando-o até sua deterioração. Sinapses poderosas revelando sentidos, criando fatos. Dar luz a um pensamento é o mais belo dos partos.



A book is a gun.

Palavra sobre a palavra

As palavras flutuam, escapando das bocas, fugindo das páginas. Grafemas vivos, fonemas energéticos. Coisas pequenas e flutuantes, de existência quase ínfima; este alinhar de símbolos e grunhidos cheios duma força medonha. De onde vem seu poder? A linguagem tem função divina dentre os meios telúricos. Soberana, materializa o etérico, une ideias, cava abismos, ateia incêndios, cria pontes e as destrói. Quem lhes deu esse peso? Capazes de demolir cidades e fecundar terras. De assassinar e de vivificar.

Falo com receio, escrevo como um ourives performa o ouro — denso, opulente, tenho tato; ouço com assombro, atenta, como quem ouve anjos. Literatura é arma. Verbos queimam-me a carne; adjetivos são punhais cortantes. Palavras causam-me um medo encantado.

Poderoso quem descobre como dominá-las — quem souber, me informe, por favor; iludo-me se acho que as controlo. A palavra vem antes de mim; mal as digo e já encheram o ar, tomam todo espaço. Frases são sentenças impermeáveis, quase sólidas de tão duras. Elas me têm, brincam comigo, ludibriam-me em seus sons, arranham minha pele com seus infindos sentidos — mas eu as adoro em sua ambivalência com toda minh'alma.

Últimas leituras.




Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Marquez

Neste que é um dos maiores clássicos da literatura, o prestigiado autor narra a incrível e triste história dos Buendía – a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações dessa família, assim como a ascensão e a queda do vilarejo. Para além dos artifícios técnicos e das influências literárias que transbordam do livro, ainda vemos em suas páginas o que por muitos é considerado uma autêntica enciclopédia do imaginário, num estilo que consagrou o colombiano como um dos maiores autores do século XX.

Cem Anos de Solidão é lindo. Uma obra de sensibilidade e genialidade extraordinária, que lhe envolve, lhe prende, lhe emociona inteiramente nos mais simples e triviais trechos. No instante em que se lê as primeiras páginas, você se entranha na história.  As palavras fluem de uma maneira natural, como se o livro tivesse sido escrito pelo vento ou coisa parecida, e nos abraçam, nos sussurram. É preciso ler verdadeiramente e ser lido  por Cem Anos de Solidão, e assim, é inevitável tornar-se um Buendía também ao correr das páginas.

É uma história extensa, mas não pelas suas mais de quinhentas páginas: é extensa porque diz muito.  Sobre sobre o mundo, sobre a América Latina, a idade, a família, sobre a solidão inerente ao ser humano e sobre o próprio ser humano, com suas guerras, com seus amores, com seus medos e suas vidas que são sempre tão únicas mas tão gerais também, as coisas que são sempre irrepetíveis e irreparáveis mas acabam por se repetir um pouco no fim das contas. Enfim, sobre a vida. Macondo é um microcosmos criado de uma forma impecável, com tantas informações interligadas perfeitamente, de forma que não cansa o andar da história. Me foi uma leitura lenta, mas tudo bem. Pude absorver bem tudo.

Foi o primeiro livro de Gabriel Garcia Marquez que li, muito indicado por diversos amigos meus, em especial dois muito queridos. A obra entrou no meu coração e me fez querer descobrir ainda mais sobre seu autor, cujo quero ler mais e mais.

Macondo merece ser visitada; conhecer os Buendía é uma das melhores experiências literárias possíveis. É um livro que eu daria a meus filhos, um livro que eu recomendo a todas as pessoas do planeta terra. 

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A Morte de Ivan Ilitch - Leon Tolstoi

Nesta novela - considerada uma das mais perfeitas já escritas, Tolstói narra a história de Ivan Ilitch, um juiz de instrução que, depois de alcançar uma vida confortável, descobre que tem uma grave doença. A partir daí, este passa a refletir sobre o sentido de sua existência, numa experiência-limite de rara força poética, que só a grande literatura consegue traduzir.

A Morte de Ivan Ilitch é uma leitura rápida e fácil, mas também, interessantíssima. As páginas correm de forma natural, é quase como um diário. Não há nada de extraordinário: trata-se da vida e morte de um homem comum, com uma vida quase entediante; mas é justo esse correr um tanto quanto rotineiro do livro que traz as questões que ele precisa passar. Muitas vezes não nos atentamos a certos fatos da vida simplesmente por serem eles acatados automaticamente e sem segundos questionamentos sobre.

De alegre o livro não tem nada. É muito sincero, muito franco: é cheio duma realidade arrebatadora. O egoísmo e a hipocrisia presente na obra de Tolstói são um retrato social muito exato, com todo o fingimento de uma vida, os papeis sociais, a superficialidade das pessoas e tudo mais que nos é recorrente e ao mesmo tempo ignorado por simples comodismo.

O título não deixa mistérios sobre a sua principal questão: a morte. A inevitável, humana, inerente morte, que apesar de tão natural e tão próxima, é tratada como tamanho tabu que é quase negada. A surpresa de sua chegada e a dor de seu processo. O que é ela e de quê se trata o meio que até ela chegamos — a vida.

 Vi tons de crítica inteligentíssimos no livro, que valem sua leitura e seu tempo; faz pensar, faz sentir.

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Toda Poesia - Paulo Leminski


Paulo Leminski foi corajoso o bastante para se equilibrar entre duas enormes onstruções que rivalizavam na década de 1970, quando publicava seus primeiros versos: a poesia concreta, de feição mais erudita e superinformada, e a lírica que florescia entre os jovens de vinte e poucos anos da chamada “geração mimeógrafo”. Ao conciliar a rigidez da construção formal e o mais genuíno coloquialismo, o autor praticou ao longo de sua vida um jogo de gato e rato com leitores e críticos. Se por um lado tinha pleno conhecimento do que se produzira de melhor na poesia - do Ocidente e do Oriente -, por outro parecia comprazer-se em mostrar um “à vontade” que não raro beirava o improviso, dando um nó na cabeça dos mais conservadores. Pura artimanha de um poeta consciente e dotado das melhores ferramentas para escrever versos.

Toda Poesia é um livro simples, e por isso mesmo, muito bonito. Os seus versos nos trazem sorriso, nos espelham nas pequenices, é um livro agradável demais; uma brincadeira gostosa de palavras, uma sensibilidade linda tem Leminski, uma delicadeza, é diferente, não sei. Sei que criei afeto pelo autor. Parece ter trazido algo muito diferente à poesia, algo único que criou frutos. É um livro que acaricia a alma!

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A Hora da Estrela - Clarice Lispector


A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo pelo escritor Rodrigo S.M., alter-ego de Clarice Lispector, de um modo que busca permitir aos leitores acompanhar o seu processo de criação. O autor faz o relato da vida triste e sem perspectiva da alagoana, pontuada com as informações do 'Você sabia?' da rádio Relógio, sinistro metrônomo a comandar o ritmo de seus últimos dias de vida. Para a cartomante Carlota, a quem Macabéa procura em busca de um sopro de esperança, esses dias derradeiros deveriam ser coroados com o casamento com um estrangeiro rico. Mas, ironicamente, Macabéa termina sob as rodas de um automóvel de luxo Mercedes-Benz.

Clarice é sempre impecável e espetacular, não há quem negue; mas sou suspeita para falar de qualquer obra desta mulher, de tão apaixonada que sou por sua escrita, de tanto que há dela em mim. "A Hora da Estrela" é tão humano que dói, tanto nos monólogos de Clarice que entrecortam o livro — falando da exaustão de dar à luz àquela obra e da exaustão de ser humana, a dor da empatia, tentando dar palavras embaçadas a seus conflitos de vida e pré-morte que a assombravam —  quanto na história da personagem principal, a nordestina que apesar de aparentemente insossa, mínima na vida, nos provoca de uma forma inesperada. Encontramos na estranha protagonista tanto de nós, por mais distante que ela pareça. Retrata toda complexidade que há até no mais simples da vida, o quão grandioso e pesado é o que mora no oculto de um ser, em suas fases, devaneios, rotina e dores cotidianas. Clarice une o emocional ao social, aproximando-nos da realidade seca da pobreza, da inocência, da ignorância. Atenta-nos pras Macabéas que cruzam todo dia nosso caminho, desperta-nos uma empatia digna de choro. É uma história cativante, sensibilíssima, linda. Precisa ser lida de peito aberto e à flor da pele, senão, não pode ser compreendida. As páginas deixam um nó na garganta. É tarefa dificílima falar desse livro porque ele é tão delicado. O que posso dizer com firmeza e certeza é: merece ser lido, consumido, observado e refletido página por página.

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O que o sol faz com as flores - Rupi Kaur

Rupi Kaur tem um tato para falar da vida que me deixa sem fôlego. A escritora tem uma delicadeza linda, coloca tanto em linhas tão simples. É o tipo de literatura que acalma, que acaricia, que sussurra: tá tudo bem. É um livro muito humano e muito cru, e, sobretudo, muito feminino. Conecta partes de você que mal se conhecia ou lembrava. É sempre uma experiência linda ler qualquer coisa dessa moça, e com esse livro não foi diferente: é beleza em forma de livro. 

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Estamos a anos-luz do outro. Somos muito longe — tristemente isolados, eternamente em realidades paralelas. A vida é função solitária. Uma pessoa é terra inalcançável. Galáxia isolada por infinitos de distância, mundos de lonjura; aproxima-se doutros corpos no céu da existência, mas não pode-se colidir. O amor é foguete. Dilacera distâncias, aproxima universos. 

Amor é aeronave desgovernada. Mergulha-nos em buracos negros, empurra-nos no caos de um delicioso e esperado fim.

Claridade


Eu quero tocar os fatos,
afastar as névoas da realidade,
ir contra as distorções do tempo-espaço,
a claridade.

Não crio dúvidas,
não temo a luz,
eu quero o cru;
roo as carnes até o lamber osso da verdade.

Mais uma indagação ao amor.



O amor tem em si o seu fim. É coisa silenciosa, cheia de mistério. Bicho faceiro, ardiloso; pendura-se e prega-se sem pedir espaço — porque todo espaço é dele. Recusa perguntas, nega respostas. Existe somente para ser amor. Por que? Porque é amor. E é esta a única resposta possível; basta-se nisso.

Sobre ver você.

É como dialogar com meu passado encarnado.


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A flor amarela coloriu minhas lembranças como um eco repetitivo daquela noite; o toque morno e solene da mão do mais fresco estranho que visitou os meus dias causou-me estranha emoção. Entre escadarias e becos calorosos, beijos molhados e toques ansiosos que a grande lua iluminou, a colorida paixão carnavalesca fez subir e descer as ladeiras de meu peito. 

A cidade é palco de encantadores e findos amores. Surgem com intensidade de fogo, duram enquanto dura a noite e vão-se com o vento, deixando cinzas de uma falta, resquícios de um desejo que me parte o coração. 

Me ofende a efemeridade das coisas — eu, que sonho o eterno. Mas essa mesma transitoriedade deixa-me alerta: agarro os momentos com toda tenacidade por não querer que eles quebrem-se em vão. Consumo os instantes ávida por inteireza para tê-los completos, evocando-os tão somente no silêncio de uma nostalgia carinhosa, cheia duma alegria lacrimosa.

Eleições.

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Eu choro pelo sangue que macula esta pátria; ela me pariu e ela me rejeita. O desespero sai das minhas entranhas, escala minha garganta, quer sair em forma de grito — mas sou silenciada por mãos vis e por vozes maiores, cheias de uma potência possessa que ferem a existência humana, arranham a beleza da gente; seus donos querem pintar os dias de um cinza inóspito e de um vermelho que cheira a sangue velho. O diabo toma formas humanas, propaga-se em solo nacional e sua maldade faz amizade tão facilmente. Então eu choro. Porque só me resta chorar, com a boca cheia de desgosto e os olhos espantados. A esperança foi-se embora, entregou-me ao medo. A humanidade se esvai dos homens e eu não me reconheço em minha espécie. Minha pele é fina demais e essas rajadas de raiva eletrocutam, falem meus órgãos. Hoje os outros me enfraquecem com sua cólera venenosa. Amanhã querem matar minha carne.

Empatia

A imensidão de uma vida não há o que explique. A existência de cada humano me importa, me delicia e me fere; o outro sou eu. Porque sua história é tão rara e inexplicável e grandiosa quanto é a minha, e o que habita seu peito é válido e tão incrível quanto o que eu tenho em mim. Seus amores têm tanta loucura e tanta paixão quanto os meus. A sede que seca sua carne parece com a minha sede. Somos plurais. Estamos conectados pela odisséia que é estar na Terra; o caminho que ele percorre é tão árduo quanto o que meus pés percalçam. As lágrimas que seus olhos derramam doem como minhas próprias. O corte na pele do próximo arde na minha. 

Eu sou o outro. Mesmo quando ele não me é. Mesmo quando ele não me vê e não me sente — eu o perdoo porque também eu preciso de perdão. E eu o amo porque também eu preciso de amor.

Evoluir

Vivo meus dias num ímpeto de aprendiz; quero as várias verdades do mundo em todas suas versões. Tenho sede da vida e fissura pelos infindos mistérios que rondam meu corpo humanamente errôneo; eu vim para estudar. Sigo ávida e de peito aberto à tudo que meus olhos podem ver, quero tudo que pode o mundo me entregar.

A realidade faz arder meus olhos e perco a cabeça; desespera-me estar irremediavelmente presa a tudo isso, colada à carcaça em que nasci, presa à teia dessa vida que não escolhi levar e que me leva com fúria e com pressa, que desatina e violenta a pequenice de minha existência com cruel excelência. Pouco entendo. Não encaixo. Tudo parece muito maior ou tão reduzido. Em cada cômodo que visito. Nos rastros que percorro. Não há circunstância que tire do meu peito este não-pertencer; esse desencaixe que fere, incomoda como ferro contra a carne sensível.

Paz


A paz mora na grandiosidade dos momentos ínfimos.

Bookstore.

priveting:
“Photographer: Mai R.
ᴅᴏ ɴᴏᴛ ʀᴇᴍᴏᴠᴇ ᴛʜᴇ ᴄʀᴇᴅɪᴛs. ᴛʜᴀɴᴋ ʏᴏᴜ. ♥
”


Caminho por entre os livros com o conforto de quem pertence. Não desvendo o mistério: sou das palavras ou eu as tenho? Engendro a poesia mas em seu parto, banhada sangue e suor, num pranto soberano, cheia duma dor exótica e com estrambótico alívio, sou eu quem venho à luz. Renasço a cada trecho
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Anseio comer arte — vim a este mundo para ver de olhos muito abertos a literatura infinita, para respirar as letras invisíveis que a música desenha no ar. Meus olhos, tontos, são incessantes filmadoras que põe o mundo ante uma lente rosa irreparavelmente apaixonada. Eu quero ir onde a dança sedutora das línguas podem me levar. Habitarei os devaneios de Van Gogh, sonharei o que sonhou Dalí. O meu sangue é tinta viva. Hei de viver cada milésimo das realidades que a tela de cinema pode me mostrar. Eu sou inteira metáfora; regida por lirismos extravagantes, baseada em fatos irreais.

Platão me entenderia

A realidade me foge. O filme que revela-se no correr dos dias é por vezes fantasioso; parece-me distante, engendrado de formas peculiares e incríveis demais, com fatos tão simples mas tão pouco cognoscíveis que me deixam suspeitas. Duvido do que a retina reflete. O presente me é sempre tão distante. Vivo no pretérito; o hoje será meu quando tornar-se ontem. O instante atual foge, engana; o presente já passou, os instantes são borboletas azuis, amarelas, afoitas, incapturáveis. Quando penso agarrar o momento, ele já partiu. O milésimo anterior já constitui meu passado e o centésimo atual acaba de voar também. Abismos moram entre os segundos que passam destrambelhados, atravessando-se, engolindo-se, engolindo-me. A verdade visita-me na memória. Os fatos são sólidos quando concluídos, estáveis. Só então são meus, vivendo no eterno de minha consciência humanamente falha, mas tão mais real que a realidade. O universo platônico me é muito mais tangível que o que minhas mãos podem tocar.

Cura


A água do mar encobre-me até a cabeça para depois deixar-me nua, como um incrível cobertor translucido que parece brincar, escorregar sobre minha pele. O sol mancha de ouro as águas que me engolem e salgam-me até as entranhas; o sal, substância regeneradora, parece reestabelecer-me as desordens, entrando por onde só a água alcança e vitalizando rachaduras antigas.
O julgamento real do amor dá-se puramente na distância; a verdade total dá as faces no fim. Quando vira saudade, olho de longe e vejo o abismo do sentimento: surge a verdade aninhada nos vãos da memória, arde a falta, vivo a paixão. Descubro a veracidade do meu amor na distância, sem as névoas do presente, que me é sempre tão distante. O sentimento se revela quando me afasto e vejo melhor: seu tamanho, sua forma, sua cor, a altura da sua voz. O encaro de longe para aprendê-lo; volto correndo para abraçá-lo.

Sangue

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Assombram-se do fluído espesso e abrasado que escorre com a naturalidade ancestral e crua da flor sangrenta entre as pernas da mulher, mas encaram alheios o peito ensanguentado de quem morre por descaso no asfalto insípido das ruas desta cidade tóxica; veem sem pudor o pulso flagelado de quem já não sabe manter-se vivo, sem pânico algum os que apagam-se num borrão vermelho de tortura nos campos bélicos que infestam o mundo como uma praga indelével. 

Vocês têm nojo do sangue errado. O natural ojeriza, o feminino é dispensável; o puro vos assusta, mas o cruel satisfaz.

Legítima defesa

Emoções vorazes habitam meu ventre. Mexem como bichos vivos, inquietos e quentes; me mordem, me comem. Eu não sei como parí-los. Ou os mato
 ou eu morro.

Catástrofe interna

Sufoco estes sentimentos porque de tão imensos que são, causariam qualquer catástrofe maremoto vulcanismo tsunamis tremores totais se ousassem vir ao mundo. Cheios duma densidade inumana, pesam muitas toneladas; são facas afiadas até para mim, amor — principalmente para mim.

Ensaio milésimo sobre o amor

Eu falo tanto de amor porque é sob sua lente que meus olhos vêem o mundo. O amor é uma onipresente divindade que envolve o tempo inteiro o meu corpo antrópico, de mil modos e mil formas — todos esses amores eu aceito, com suas dores e cores e temperaturas e flores. Eu o sinto límpido como as mais diáfanas águas, o respiro, quase o toco. O amor move minhas pernas, esfria-me a nuca, fogueia o coração — mas eu não sei o que é. Do quê é feito? Por que é? 

Sinceramente: não sei. 

E não alcançarei o saber. Não há palavras humanas que capturem matérias deíficas. O amor é tanto e o amor é tão amor que lhe faltam outras explicações: é amor e ponto. Fiz-me especialista em suas práticas, dispenso a teoria. O tenho e o sinto; e isso é maior, melhor. Importa mais que saber. Que mais pode se dizer? Ele é. E por si, basta.

Porque eu mentiria se ousasse dizer que não sinto tua falta. Eu sinto. Diariamente e por toda a parte. Tirar-te daqui deixou muitos espaços, lacunas, abismos. Eu tropeço nesses buracos. Tantas músicas falam sobre ti, amor. Tantos gostos são teus. Todos os espaços têm lembranças e elas vêm contra mim, impiedosas. Eu sinto tua falta. De quando chamei-te de amor e dei-te todo meu amor e de quando nosso sexo não era sexo: era puro amor. Dos dias doces e das fugas. Das mãos e da barba e do riso. De quando me quiseste. Da companhia incondicional. Enfim, do que foste. Os anos colaram tua presença na rotina dos dias. A tua falta se faz presente. Machuca. Lesiona. Fere. Incomoda. Há em minha garganta um pranto pelo que não foi. Estou rondada de interrogações. Há falta, confesso. Mas não há saudade. Choro lágrimas conformadas. Eu não quero que você ocupe esses espaços. Você já não encaixa; quem eu anseio é outro. Te fizeste um homem estranho a mim; não mais o conheço. Quem desejo não existe mais; habita tão somente um passado — brilhante, lindo e eloquente, mas ainda assim, passado. Dolorosamente intangível. Distante como só o passado é.

Admiração

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Os olhos do poeta louvam sua musa e a iluminam com a luz de uma adoração vívida, tão presente e inegável no semblante miseravelmente enfeitiçado pelo elixir de uma desvairada emoção; encara com veneração a criatura amada, com entrega, fascínio, cheio duma curiosidade esfomeada, com a espera de lhe capturar até a alma com a lente de sua retina. Mora neste olhar entregue uma poesia ainda mais sublime que na própria ode que escreve. Os olhares são as mais extremas declarações de amor.

Ode à carne

johnlisle:
“2016 - Print available here.
”

E a este corpo que carrego pelas veredas do mundo devo, tão somente amor. Porque ele é a expressão mais real de lar que há. É meu signo de força. É sinônimo de prazer — para mim e para quem decide conhecê-lo. Estes olhos apresentam à minha alma a vida que corre, voraz e magnífica, ao redor de mim; céus majestosos, terras incríveis, paisagens infindas. Esta derme em sua crueza experiencia arrebatadoras sensações: o queimar do calor e o tremer do frio; a dor, o arrepio, o toque, o choque. Estas mãos conhecem texturas e formas e tocam e criam; expressam meu amor, ortografam minha arte. Esta cabeça está preenchida inteira de pensamentos tortos, inteira de ideias, cada uma com uma vida inteira e própria. Este peito sente com todo o possível potencial. Este corpo cria asas de prata maciça que ninguém vê — mas eu sinto; deliciosamente pesadas, vão contra a gravidade e levam-me alto, arrastam-me longe… Este corpo é movimento. Meu coração bate e ama. A resiliência mora aqui. O meu corpo é minha mais elaborada obra de arte. Faz poema, é poesia.

Conto de paixão

De nosso conto de paixão, durado trinta e cinco dias e algumas horas, herdei uma pontada aguda no peito, um laço apertado na garganta, instantes bonitos e manchas de saudade. Há a possibilidade de você ter me arrancado algumas lágrimas — sem desespero, não se preocupe; nada incurável. Obrigada. Você me rendeu bons trechos e boas horas.

Pintada de luz, banhada em sol.


O ar da praia vazia carrega uma paz sublime, azul; o sol de trinta e cinco graus desta manhã — tão corriqueiramente bela — surge por entre as nuvens alvas, cumprimenta-me sem timidez. Deita-se por mim e passeia por minha pele crua, nutrindo minhas células com sua calidez. Absorvo a luz como uma velha conhecida; o calor dissipa-se por meus poros, torna-se meu. Meu coração agora é todo verão.

Eu nunca sinto o que valho; o que pinto na vida do outro parece-me sempre mínimo — miúda que sou, não imagino como merecer casa na divindade de um coração. As palavras de amor me parecem teatro; a possibilidade de tornar-me objeto de paixão faz-me rir. Não entendo de ser amada. E é por isso que eu vou fácil. Que largo. Que saio. Desculpa. Enxergo com o transtorno dos ensimesmados. Perdoa. Não aprendi a receber; só sei sobre entrega. Sobre dar-se inteira até escassamente restar — fui feita não para mim. Te peço: me mostra. Ensina-me teu afeto. Fala-me na língua dos românticos.

Conquista

primeiro eu amei pela boca;
o sorriso estreito de presas alinhadas e reluzentes (eu suplicaria para ser sua caça e tê-las marcadas pela eternidade em minha carne fraca)
o hálito suave que enlaçou-me em tantos sabores irresistíveis
os lábios macios, molhados
a língua quente,
fervente.

em segundo, teve-me pelos olhos de mel.
olhar de ouro,
adocicado,
afrodisíaco,
barulhento.
disse-me muito com tais olhos
muito mais que com a própria boca
transmitiu-me sonhos
sons

depois, sua pele de sol.
derme brilhante
agridoce
de tantas fragrâncias fundidas e harmônicas,
culminadas em tons de perfeição.

e então, todo o resto.
o corpo esculpido pelos deuses gregos de presente só para mim.
braços, costas, coxas.
impecável.

os cabelos poderosos como os pelos de um leão.
mãos precisas.
fala lenta,
diáfana.
o agir sorrateiro,
manso.
delirante.

tive-te lentamente;
quis devagar
para não perder
nem o mínimo
milímetro por milímetro
até alcançar
a extensão infinita
do que és
ser inteiro.

À meus homens


Falta-me a habilidade moderna de tornar rarefeitos os amores. Fui amaldiçoada com a nostalgia perpétua, com o hábito de fazer o passado vivo e latejante. Guardo ainda os resquícios de cada um de meus amantes; existem em mim e ardem e falam e tonteiam minha existência com suas sombras e aromas e sabores antigos que adoçam e amargam minha língua. 

Eu lembro o cheiro de manhã que abrigara o pescoço pardo de V. E eu não esquecerei jamais da cor de sol que morava na pele de L. O olhar açucarado e infantil de M. não me abandona, tampouco esqueço da magia de suas mãos. Posso sentir na pele os lábios que beijei. A imagem desses fantasmas faz-me tremer em ternura. Eu choro pela morte de todos os amores. Não me ensinaram a esquecer a paixão.

A última

Ardem em saudade. Os corpos febris confrontam-se: parecem querer avançar, rasgar o tecido que os esconde, aniquilar a pele que impede a mistura total de suas células; uma ânsia insolúvel de integração. Conectam infinitos num abraço. Seus hálitos encontram-se, respirações misturam-se. As bocas se encostam, se cheiram, se estranham, entretanto, não chegam ao divino ósculo: não podem consumar o ato. Têm o toque como artefato — e disso valem-se para consumirem-se maximamente. Lágrimas e suor. Sabem que é a última vez. Choram a dor do desejo irrealizável. A saliva tem o ácido gosto da despedida.


Faro

Identifico num estranho passageiro dessas ruas tua fragrância, tão familiar a mim; o cinza das calçadas adquire alguma cor no momento. A sensibilidade de meu olfato afiado faz-me parar e sentir. Fecho os olhos e tudo ali desvanece: resta somente o pensamento vivo de você, imobilizando minhas pernas, pulsando em mim. Seus dentes e lábios impecáveis brincam com minha mente; seus olhos dançam para mim. Remonto teu corpo, refaço teu jeito. Desperto melancólica. Dói o querer.

Falling

Esse sentimento chega assim, sorrateiro. Estrangeiro a meu peito, alvoroça-me toda; confunde meus atos e turva-me os pensamentos. Corre em minhas veias algo novo; trouxeste a meu peito um pulsar distinto que reconstrói minha energia. Não entendo. Tão somente sinto. Deliberadamente o sinto. Cada sinapse e cada tremor. Os arrepios e o calor. Um medo. Um júbilo. Essa estranheza. Agitação. A angustia do desconhecido. A excitação por este mesmo desconhecido. Essa ambivalência que me invade os sentidos e me faz chorar para logo depois me deitar em largos risos de amor. Essa coisa dolorida e sinuosa que é a paixão. Esse mistério que é o desejo. A revolução inexplicável do sentir.