a l m a r a d a

Das ideias políticas que me surgem aleatoriamente, I

Uma população não é um todo único e homogêneo; mais se assemelha a um ciclópico muro, composto de pedras individuais e únicas, que devem ser analisadas particularmente em seus pesos e formas para que a estrutura não rua. 

O coletivo é uma força linda, mas só é possível por ser construído por inúmeras moléculas menores agindo com potências individuais, e estas devem ser reconhecidas e cuidadas dentro de sua pequenice, para que o todo siga, próspero e íntegro. É por isso que o Estado deve uma minuciosa atenção a cada fração da nação; se há na estrutura uma sequer parcela desestabilizada e danificada, todo o resto é posto em risco.

Autoexplicativo:

eu nunca choro por ninguém.



por você, chorei.



(stronger than all my man/ except for you)
querer enclausurar-me em mim
e
na caixa firme de minha própria pele
comprimir-me até uma implosão de inexistência crua;
a impossível vontade de deturpar o tempo e nele me estilhaçar e transformar
até a nulidade do não-ser.

Quando me encontrei nas pessoas de Pessoa

Quando Fernando Pessoa disse-me em sua prosa atordoada da vontade do não-ser — quando desejou metamorfosear-se em outro, quando falou-me do tédio, do desassossego e da desvontade; quando especificou não a pulsão à morte ou a negação da vida: o simples preferir não haver existido em tempo algum... Quando falou, falou por mim. Encontrei-me nas pessoas de Pessoa. O poeta deu luz séculos atrás às inquietudes que eu viria a sentir desde o mistério de minha gênese. Fui eu fruto da sua imaginação? Será? Sei lá. Sei que conversou comigo — eu, sua nilista personagem — e, no vazio assombroso de meu quarto, sussurrei para a capa fria do livro fechado: eu também. Eu também.

Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. {F.P}

Obras de arte favoritas #2

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Pierre Auguste Cot

Irresponsável

res·pon·sa·bi·li·da·de
substantivo feminino
obrigação de apropriação às ações e escolhas próprias, pelas dos outros ou pelas coisas confiadas; latim do latim respondere; virtude daquele que responde. 

Te culpo e condeno à cruz de meu rancor — e esse peso que julgo teu, me fere inteira mas nem te alcança; pois no fim de tudo, o que cometo é não uma justa acusação, mas sim o humano e errôneo costume de entregar aos outros a falha de escolhas feitas em sanidade por si próprio. A dor que sinto nunca foi tua — é, na verdade, mais minha que minha própria carne; todas as culpas são sempre minhas. No fundo ecoante, assumo: mea culpa, que ergo palácios sem reis que o habitem. Mea culpa, que arquiteto céus cujos manterei vazios por falta de estrelas que o queiram. Mea culpa criar paraísos desabitados de anjos. Mea culpa querer sem poder. Mea culpa viver a tecer irrealidades. Assumo, sim; mas assumo de boca fechada e de dentes rangendo; assumo só para mim. Para você, eu minto; cuspo a responsabilidade em sua boca e é em ti que impregno a acidez dessa tristeza. Eu  prefiro condenar você. Os erros próprios doem mais — são eles que pesam sobre meu estômago com a pressão de mil pés; os erros seus esvair-se-ão de minha vida. Só o que é meu perturba-me. Então, por isso, fujo dos fantasmas que invoquei. Corro do castelo que sobre mim despenca porque eu o destruí. Para quê concordar em voz alta que são loucas minhas cativeiras projeções se nelas posso me apoiar para falsamente te denunciar? Escolho a tentativa mesquinha de tornar menor minha dor particular. Por que agarraria eu minha responsabilidade, se posso jogá-la quente para queimar você? 

Acusação

Convenço a mim que não vales sequer o rascunho amassado das palavras que para ti escrevi em afeto; repito: não vales os caminhos que corri em desespero na tentativa desenganada de te encontrar.

Artista?

confundo-me na bagunça dos pincéis com que brinco
e mergulho nos mares de tinta que abri

à procura incessante da tonalidade exata
que possa recolorir o desgaste roto de minha alma gasta

Stronger than all my man (except for you)

Alcança-me em susto um pensamento de você;
nada me falas
mas
na crueza só de meu quarto
ecoa somente o mistério de tua voz invisível;
és tudo que ouço na imaterialidade de minha vontade em ebulição.

Não me olhas.
Não me tocas.
Não me ouve.
Para ti,
mal existo;
mas
imersa no desespero de minha gana
decoro a realidade com as roupas que te visto em meus delírios e
assim
prendo-te aqui.

Olhos fechados,
tenho a força da raiva causada pelo desejo recalcado...

Ah, posso te sentir!

Basta que tu me alcance a ideia
e pronto:
já te abro as pernas.

Basta-me um devaneio furtivo,
basta a lascividade do onirismo,
e já caio
ajoelhada diante de um tesão desesperado.
Rangendo os dentes,
minha língua desenrola-se para chamar teu nome,
minha garganta revolta-se de cio;
acordo do sonho,
mas há permanentemente delírio.

Letárgica de desejo,
envolta numa febre infernal,
meus sentidos tremem à tua presença inventada.
Estatizo-me numa excitação de agudeza dolorosa
e
bem aqui
vejo os teus olhos
que desenhei eu mesma com a brasa roxa cultivada também em mim.

Minha carne queima em um fogo que tu ateaste sem saber.

És só anseio
e é assim que endoideço;
dói o tesão silenciado.

Eis a delícia de meu inferno íntimo,
particularmente arquitetado no vazio de tua existência meramente platônica —
esmoreço contigo,
arrepiando antes do toque
gemendo antes do gozo
morrendo antes do tiro.

Atrepsia

Não o calor vibrante da felicidade bruta, que sobe e espalha-se como água, penetra como luz. Não. Mas também não a faca aguda e doentia da dor, não a mágoa concisa e seca que rasga o peito e tem a potência de destruição que suja a vida humana. É um nada, um absoluto nada. Só um vácuo branco e morno — que é de tal modo pior que qualquer tristeza. Tão unicamente este limbo que não fere, mas não acaricia. Fatalmente este odor que não satisfaz, mas não ojeriza. Este sentimento que não é quente e não é frio, é morno — e porque é morno, preferiria lhe vomitar. Mas não consigo o afastar. Tal marasmo torna-se paulatinamente meu, muito meu. Não o quero, mas o torno. Meu Deus, me dê alguma dor. Eu quero sofrer. Ou então rir — mas não rir por convenção, quero rir visceralmente, até vomitar meus órgãos, numa felicidade delirante que vira dor por não caber em mim. Quero a bomba açucarada que é o amor repentino e quero a acidez nojenta de suas dores destrutivas. Quero o fogo da ira cega, o suor do delírio. Quero o grito contido de um prazer qualquer. Quero outra coisa. Outra coisa. Outra coisa. Não o morno. Não o quieto. Isso é morte — e não quero a morte. Gostaria de não existir em tempo algum, de ser só ideia flutuante no espaço; mas isso já não é possível e encontro-me aqui, material e sensível aos desdobramentos da carne; e se foi isso que foi me dado, então é o que devo explorar. Não me serve essa morte induzida, precoce e compulsória, ladra das forças maiores de meu corpo funcional. Eu quero viver.

melancolia ciúme e paranoia

vendo outras pessoas vivendo os meus sonhos vendo outras pessoas vivendo os meus sonhos vendo outras pessoas vivendo os meus sonhos vendo outras pessoas vivendo os meus sonhos meus sonhos meus sonhos os outros outros outros os outros vivendo os meus sonhos meus sonhos meus sonhos roubo! meus sonhos meus lugares vendo outras pessoas vivendo meus sonhos

La danse

A música sai daqueles instrumentos e infesta o ar do salão; a mistura dos sons quentes são braços vivos de uma cega entidade maior que a tudo rege e embala à sua vontade. No auge de uma madrugada ilícita, o casal de amantes no centro da sala desfruta agora o agito deste amor novo que impulsiona sua dança de horas. Compartilhavam aquele espaço vários corpos que alvoroçavam-se aos comandos do ritmo voraz que carcomia os ares; mas havia naqueles dois uma energia passional que bastaria para dar vida àquele bar cansado. O calor humano do duo viçoso fez fumaçar a atmosfera e nascer fogo sobre o chão pisado por seus pés dançantes.  Repeliam-se e atraíam-se como ímãs em um gracioso folguedo de sedução; ali estabelecia-se um jogo tão secreto que sequer eles dois, os participantes, o percebiam. Inebriam-se pelo bailar supremo de suas vontades e desfrutam a potência de seus corpos enquanto os ponteiros do relógio correm a madrugada...

O mundo ao seu redor desmoronou: despedaçaram-se as paredes, sumiram as pessoas e desfizeram-se qualquer limitações; restava somente as carnes sensíveis da dupla amorosa e os seus movimentos em alerta. Os quadris bailavam em sincronia, as pernas entrelaçadas moviam-se num ritmo único; até afastavam-se por um momento, separavam-se num giro individual por instantes — e milésimos de segundo eram suficientes para surgir a saudade e fazer voltar à proximidade úmida da festa particular que ocorria no perímetro íntimo deles dois. Riam e embaralhavam as vozes, misturavam os fluídos, uniam os corpos. Ele puxava-lhe pela cintura, pelos cabelos; agarrava-se a tudo que suas mãos pudessem pegar, na intenção gananciosa de tê-la junto. E ela ria e ia, se dava, entregava-se entre a plenitude de rebolados moles e passos precisos, encostava-se tão sugestiva, afastava-se para provocar. A saia agita-se e quase foge pelas pernas empolgadas da menina que samba, saltita e baila de mistas formas; expressava ali sua emoção. E seu par ri de sua graça entre arfadas de um desejo velado, tremendo e hesitando de tanto sentir. A camisa dele já molhada de suor, a calcinha dela já suada de desejo. Os corpos agarrados voavam como se não pesassem pelos ares do bar vazio, unificados pela dança que não era menos que um alerta atônito de um amor que ali nascia.

Mais um onze de julho.

 Concluo mais uma de minhas diversas voltas ao sol e, assim, fecho mais um ciclo com um riso teimoso e cheio de satisfação. Encaro agora a vida e aqui a indago: é isto que você tem pra me dar? Pois é isto que quero. Porque a existência é dura, mas eu sou também. A humanidade que esconde-se nos centímetros de minha carne quente dá-me tanto poder que poderei perdurar e gozar por simplesmente ser. Tanto ao pranto quanto ao riso aproveitarei, pois, afinal, que bom é estar aqui. E minhas estruturas seguirão resistindo e moldando-se ao que encontra-me nesta minha longa vereda. Fui dada aos substantivos femininos e dentro do acervo lindo de meu vocabulário, encontro A Força, A Inteligência, A Resiliência, A Subversão. Estou pronta para mais! Que seja pleno. Que seja lindo.

Grata por passar sã e salva pelo ano mais revolucionário da minha vida. Grata por ter pessoas incríveis ao meu redor — pessoas lindas que tornam a beleza da vida mais clara, me ajudam tão sinceramente a encarar minha jornada e me permitem também participar das seus caminhos. Grata por quem fui, por quem sou e por quem serei. Que meu novo me traga ainda mais mudanças e aprendizados — porque, afinal, é para isso que estou aqui —, que eu me torne outras e viva várias versões de mim, mas que sobretudo eu esteja maior e melhor em cada uma delas. Estou pronta para mais. Parabéns para mim.


Força
Coragem nessa hora
Levanta e vai embora
Não pague o couvert
Não suporte a cena
Pena
Ninguém merece
Infelizmente a poesia acontece ou não acontece
É forte ou fraca
É bela, feia
É fresca, é velha
É ruim
É besta
Caia
Despenque estatelado
Recolha o lixo, os cacos
Perceba que o melhor
É desistir de tudo
Minta
Finja que estava errado
Que é um resignado
Que sabe que o melhor
É investir com tudo
No artifício
O exercício
O benefício
O vício
De ser besta

Descanso

Depois das rajadas doloridas do dia que passa
o sono acolhe-me e cobre-me de um amortecimento 
e no conforto de um suposto final
rastejo-me para o enleio de meus frios lençóis; 
na solidão intocada desta cama 
ergo castelos particulares 
formados de líricos devaneios 
que desmontam como esculturas de areia ao vento 
quando sopra a primeira bruma da manhã
e recomeça a agonia do real. 

Na solitude ébria de um sábado à noite

De minha individualidade, fiz um império. Escondo-me depois do destroço dos dias na caixa hermética de mim mesma e aqui teço fantasias que abraçam-me com o acolhimento de um amor verdadeiro. Com as cores de uma inconsciência brilhante, construo pensamentos que moram entre o real e o onírico e cultivo devaneios bonitos; e é quando fecho os olhos, penso e sonho, trancada no brilho de minha colorida consciência particular, que faço-me maior e vivo melhor. 

EMPTY EMPTY EMPTY EMPTY EMPTY

Rasgo minha garganta
na ânsia frustrada de exprimir de meu âmago algo que dê sentido a esta vida tão despedaçada,
mas todas as minhas palavras são falsas
porque já não há o que falar.

Como citar o profundíssimo vazio que cerca-me e come-me por todos os lados,
como dar voz a uma alma vácua?
Um buraco expande-se bem no centro desta caixa torácica dormente
e apodrece o meu corpo como um câncer maldito.
Sem dor,
sem gozo.

O que resta-me ainda destes é visceral e indizível,
sólido e duro como sangue cru
e fora isso, é tudo espaço oco
e só.

Já não posso dizer, já não posso escrever.
Qualquer coisa seria vã demagogia
e não quero mentir.
Verbos não poderiam avivar esta terra morta,
minhas palavras hoje não saberiam ser luz.

Resigno-me, então,
ao silêncio trágico da escuridão destes dias abissais.

A voz da libido

{te quero bicho
e um novo jeito de gemer
'cê fica lindo
num jeito novo de fuder}

Quero-te obediente.
Ouve bem o que ordena a sinfonia dos meus sons mais desvairados;
fizeste o sertão virar mar
e agora correm por meu corpo inteiro águas eruptantes
que desaguam entre minhas pernas abertas  — foz viva, 
mata em mim tua sede.

Transbordo.

Engula minha luxúria vulcânica e,
sob o fogo erguido no oceano de meu ventre aceso,
dance em mim o balé harmônico dos desejos mais cálidos.

Entre sussurros e uivos,
eu peço, cheia de ânsia:
quero-te perto, 
mais perto, 
bem perto...

Enquanto deslizas por mim no serpentear inebriante desta volúpia,
murmuro clamores colada em tua boca e,
enlaçada em nosso abraço nu,
chamo-te numa ânsia passional
— estás junto, mas na ânsia do meu tesão, nada é suficiente.
Entregue-me o máximo,
cumpra meus caprichos,
ouça meus suplícios.
Ponha-se aos encantos desesperados desse desejo
e esteja tão entregue quanto eu,
pois sou para ti agora só corpo em chamas, carne crepitante;
engolir-te-ei no calor de minha fogueira
e com o crescer de minhas labaredas,
estarei cada vez mais bêbada pelo veneno desta lascívia santa...

Arrasto-te para mim.
Sinto-te por dentro.
São movimentos elétricos
que descem vivos pelo corpo
e espalham-se como choques
até que causem nossa morte
e depois voltem para acender-nos de novo.

O contato infernal, passional
derrete minha cognição
e no bailar furioso deste sexo de bichos
perco a sobriedade,
fecho os olhos,
desbotam os pensamentos.
Imersa em em uma escuridão tácita,
entrego-me à exatidão do abismo sensível
e tanto se expande em mim o meu gozo
que não há espaço para qualquer coisa que não este delírio prazeroso.

Toca-me com força,
beija-me com gana,
venha com vontade;
Impregne-se no mais fundo de minhas entranhas,
deixe um pouco de si aqui...
Eu quero uma intensidade que marque,
rastros teus —  presentes impressos em mim:
o legado fatal de tua boca,
a alcunha animalesca de tuas presas,
a força cuidadosa de tuas mãos.

Para que torne-se perpétuo o agora
e quando acabe a delícia de nosso inferno
eu repita o meu gozo com a lembrança desse pecado.
Aquecerei minha solidão futura
com as reminiscências de calor compartilhado;
adoçarei minha língua
com os vestígios mentais do gosto insuportável do teu prazer;
não poderei ousar esquecer.

Carta ao meu amor morto.

Qualquer coisa hoje fez-me lembrar de ti. Tu ardes em mim de todas as formas ainda como da primeira vez, feito ferida que, apesar de cicatrizada, algia pela mera lembrança do que foi a dor.

Prometi naqueles dias de nosso passado que meus olhos registrariam-te com a precisão da mais bem feita fotografia para eternizar-te em minha mente — e a este feito bem cumpri. Na brincadeira desta frase proferida com tanto calor, eu não imaginaria que carregaria de fato como lembretes as memórias brilhantes de nosso precioso romance; tenho estampados em uma consciência remota as imagens perfeitas dos nossos dias raros como prata. Fiz de meu coração um álbum de recordações; detalhadamente impressa em minha carne está a nossa história — bem a sinto inscrita em mim... O beijo roubado. As palavras quentes na madrugada fria. As constelações incrustadas na noite. O mar que nos banhou os corpos viçosos, os pecados que a lua testemunhou. As cores dos olhos, a boca sensível. O medo, a descoberta, a paz, o tesão, o riso sem fim, a loucura juvenil. O gosto do álcool, a cama compartilhada, a fumaça, o bailar dos corpos, os planos, a construção dos anos, a dor, o amor. Tenho a impressão de que fomos maior que o mundo e é pela imensidão desses momentos que os guardo obcecada como fossem coisas; estão em mim fincados como uma adaga enferrujada pelo tempo. 

 Mantive por todos os nossos anos meu amor intacto, meu querido; este afeto eu não pude matar. Mas infelizmente já não posso entregar-te minha paixão: és outro homem agora. Não pior, também não melhor — adjetivos curtos como esses não abrangem a imensidão de uma alma! — ; és completamente outro e a esse outro, não quero. Quem amo mora a quilômetros inalcançáveis: habita a perfeição do pretérito. O tempo — esse incoercível artesão — modificou-te tão drasticamente que não reconheço em ti sequer um eco de quem amo. Sim, também eu mudei. Mas fomos esculpidos em formas tão divergentes que já não posso encaixar-me em ti. Quem és agora já não me transtorna os afetos, e é por isso que não posso mais te aceitar aqui, me perdoe. O que vejo agora não condiz com o que desejo — porque meu amor tornou-se ideia, fantasma, memória, e a plena consciência desse fato traz a meu corpo uma estafa, mágoa sem remédio. Meu sentimento não tem futuro; seu remetente desbotou-se em qualquer momento do passado e já não tenho a quem entregar.
women
know
how
to
love
better.

(maybe
love was created
by the tender hands of
a woman
and then
they are the only beings
with the legitim power
of the good love)

um dia morrerei neste sufoco ansioso de a tudo amar com muita força

Liberté

Em minh'alma, firme dualidade. Habita em mim uma fidelidade tão concisa à mais plena liberdade que faz-me escorregadia e não permite-me fixações; nada me prenderá. Eis o que busco: movimento, expansão. Como poderia eu parar? Se ser humano já é propriamente uma limitação, travar-se ainda mais além da parcela natural desta condição da própria da vida parece-me um crime contra si. Não engulo o medo. Limitar-se é cruel castração.

E então eu, que sou feita de areia, fujo por entre os dedos do que tenta me laçar; como areia, sou dispersamente fragmentada e cada parte minha corre pelos ares do mundo, volátil, espalha-se sem limitações. Não paro. Eu não saberia parar. Há em mim uma ansiedade nervosa que não aceita a monotonia do hábito; é necessário esgotar as possibilidades, ir até o fim aos caminhos da vida, explorar cada parte das mínima nuances de eventualidade que minhas mãos podem alcançar. Liberté. Courage. Mouvement. Acomodar-se é morrer.

Simultaneamente cá dentro, uma face oposta do desprendimento: este afeto incontrolável pelo que fui e pelo que foi, doce apego que faz-me tornar eternamente minhas as partes de tudo que toco; uma paixão incondicional pelo que constrói minha vida — porque o presente e o passado não são construção? E como poderia eu negar a antiga estruturação que ergue o que sou? Parto, mudo, avanço, mas não esqueço-me jamais. Dou asas às fixações e as torno minhas amigas para que os estados voem comigo. Incrustados em mim, como diamantes pessoais, ficam os vestígios dos tantos passados que experimentei.

Em meu peito, um infinito apreço pelas coisas que foram e adoração também pelo o que encontro no agora; mas também uma infinita paixão pelas virgens possibilidades que aguardam-me ainda inexploradas — amo o que não conquistei e quando o conquisto, eternizo-o em meu peito e o amo ainda mais. Mas o amor permite o movimento. E o mesmo amor que me prende é também o amor que me solta, pois tenho em mim dois corações: um impulsionado pela força das memórias e o outro vibrante pela vitalidade dos desejos. Ambos juntos trabalham para manter vivas as rodopiantes células elétricas que pulsam a máquina magna deste corpo imensamente humano...

Desprendo-me de sufocos, eu nego o cárcere de estado — mais me seduzem os desafios em suas transcedências. Dos costumes, quero o eco do que falam e ensinam, memória para que fique em mim a lembrança do que foi por um momento. Agarrar-me a somente uma fração da vida é negar o infinito que há nela. Quero explorar o todo que posso ser. Preciso ver a imensidão que pode haver.

Pois vejo-me assim, enfim, equilibrando dissonâncias: carregando a volúpia da liberdade, o voo constante, mas abençoada sempre com a bela lembrança de paisagens passadas; guiada para frente pelos fantasmas do que foi.
à noite,
quando estou eu presa na entorpecência de meu sono humano,
os livros 
— essas divindades oniscientes
que aprisiono egoistamente em minha estante —
criam olhos e ouvidos
e então
encaram a brincadeira inocente da minha alma nua 
e ouvem as palavras agitadas escritas na dureza de minha carne
e fotografam meus sonhos barulhentos

assim,
descobrem-me
e fazem suas páginas todas sobre mim

e depois,
quando os abro e tenho a ousadia de querer lê-los
percebo,
enfim: 
são eles que leem a mim. 

Diagnóstico

"Doente, doutora, está doente! Ferve eternamente numa febre ardente — parece andar acompanhada por uma chama que não tem mais fim. Não come, mal pensa, não dorme! E também não deixa ninguém dormir: madrugadas inteiras fica a chamar numa inconsciência mole por nomes embaçados, palavras escuras que não cabem em meu vocábulo. Apegou-se à janela, encara um infinito desconhecido na paisagem e passa os dias a suspirar, castelando, presa em si própria — sabe Deus aonde essa menina vai nestas horas de meditação irresponsável. E às vezes a flagro em risos infinitos que ninguém provocou, e em seguida cai num pranto de horas que vem sem motivo algum. Olhe, não sei o que há. Ela também nada diz, veja que agonia! Sei que suspeitei demônios, de loucura, de vírus, de todo o resto; fui a médicos do corpo que a nada detectaram e, já não sabendo o que fazer, venho à senhora..."

A psiquiatra ouvia a mãe histérica enquanto observava a protagonista da história para analisá-la além do discurso preocupado; sentada ao lado da mãe incompreensiva, separada da doutora por uma mesa e alguns papéis, a jovem mostrava-se surda para o mundo; olhava para as próprias mãos, brincava com os dedos; vez ou outra, deixava escapar um risinho. E a médica, ao fim da explicação — que mais parecia um desabafo frustrado —  não pôde deixar de rir também da graça arabesca de tudo aquilo. Não era óbvio o diagnóstico? Respirou fundo, ajeitou o óculos. Com um sorriso esperto nos lábios, esclareceu a situação.

"Não a entendes porque ela fala somente com a voz do amor" explicou a doutora, na amenidade do costume. Eram tantas há tantos anos sofrendo do mesmo mal que já não havia surpresa "Está amando! Paixão, querida, é paixão. E me parece ser uma forte. Mas, olhe, não há mal; é natural, é da idade. Diria que faz até bem, endurece o caráter"; falava, sem olhá-las, e prescrevia um simples chá de camomila e mel — para acalmar o coração enlouquecido, adoçar os lábios virgens e confortar o corpo. Solitariamente apaixonada. Coitada! Entregando a receita médica, concluiu: "espere por algum tempo e nada mais; essa agonia vai-se rápida como vão as chuvas de verão..."

Lembrando...

Eu amo esse espaço porque ele guarda tanto de mim em tantas fases diferentes. Embarquei em uma máquina do tempo relendo o passado que está aqui, tão bem arquivado nesse caderno irreal... Descubro de mim flagrando as palavras que pari há anos.

Parece-me que não mudo. Há qualquer coisa de que não consigo me livrar, que não consigo matar nem quando emprego a mais potente das forças. Mas sei que cresço, me expando, me ilumino. Sou sempre a mesma, sim. Mas cada vez melhor. Maior. E por meio do passado verbal que escondi aqui, vejo com uma lupa essas nuances; reconheço o brilho que tomei, tudo que ganhei e as coisas que perdi; os sabores, as cores. É interessante. Por isso, morro de medo de perder todos esses registros um dia. Eles são tanto. Tanto. As palavras que minhas mãos bordam no mundo são mais eu que meu corpo; são minha verdade, a face exata. Quem me lê, me encara. E talvez seja por isso que seja crucial para mim escrever — porque é como, enfim, me vejo. Faço-me valer a mim e também ao mundo, pois é pela palavra que crio provas do crime delicioso que é minha vida. Perder esses arquivos seria talvez perder um pouco de mim. 

Amo as outras Anas que fui quase mais do que amo a que sou agora e por meio de meus textos velhos que as encontro. Tenho isto em mim, esta nostalgia. Uma necessidade brava de estar em contato com o que foi. Não termino nada; vou levando comigo. Meu tronco direciona-se quilômetros ao céu, vai longe, alonga-se, abandona sem retorno o seu início; mas eu não poderia jamais livrar-me das raízes nutritivas ou dos espaços por onde cresci. E não saberia dizer com uma exatidão de diagnóstico se esse fetichismo ao findado me é benéfico e faz-me melhor por direcionar-me no presente por caminhos passados, ou se é mau por prender-me no que, agora, já é irrealidade. Não sei. Mas eu gosto. Às vezes é desgraçado como o inferno lembrar tanto, mas, no geral, eu gosto.

trilha sonora da tarde

15 de maio. A educação resiste.

E se o que chamam de balbúrdia trata-se tão somente de expressão de vida e consciência de minha juventude, se a balbúrdia que detratam fala de ideias melhores e tem tantas boas vozes, que a balbúrdia seja reverenciada, pois quero os cérebros multicor de minha gente trazendo vida ao céu monótono de meu país furtado. A educação é a força vital de um povo; e se ameaçam matar assim a mim e a minha nação, ousemos usar nosso pouco grito como um ataque humilde antes que até mesmo o som das palavras sejam-nos furtados; pois se não há a possibilidade de saber pleno, se não vejo o agir livre e justo nos dias do Brasil, se liberdade torna-se mito, os pilares de uma boa vida seriam demolidos e prefiro o risco à mesquinhez, prefiro o risco à resignação. Há de perseguir-se a consciência livre, a igualdade real, o ensino justo. Não me interessa viver em terras que não semeiam o que eu tão fielmente acredito. Conhecimento é poder e o poder é do povo.

Ruínas



Um cansaço que,
de tão monstruoso,
consome tudo,
consome a mim!
Cega meus olhos como um manto escuro
é pedra mórbida que estanca a vitalidade de meu meu fluxo.
Veneno infesto,
macula os espaços de minha derme como um mau perfume,
acidifica a doçura de meus sabores,
desgasta a bonita película de meu coração.

Vírus sentimental,
salga a sacracidade de meus fluídos
apaga o fogo crepitante de minha carne;
faz-me nula,
transforma-me pó.

Desassossego morto,
não o chamo sequer de tristeza
— pois, veja,
 lhe falta potência até para ser tristeza.
Eu poderia rogar a deus,
meu deus,
mas que deus?
Meu deus morreu.
O psicólogo é pura demagogia,
a psiquiatria, comigo, enlouqueceu.
Busco às cartas,
à Vênus,
aos búzios,
a Freud.
Esperei pelo tempo,
perguntei à lua,
chamei a Buda.
Indaguei à alma.
procurei o gozo, os homens, os livros
e
enfim,
busquei até ao amor.

Não.
É vão.

Sou caso de Marte,
de morte,
de arte.
Não há nesta terra esconderijo que me abrigue,
e não há nome vivo que possa clamar.

Pois fora eu,
eu mesma,
até aqui
a heroína de minha odisséia;

Arquitetara meus castelos
e desbravara minhas fugas;
bem domei minhas paixões,
zelei por minha alma.
Meus braços me embalaram
minha mente compreendeu;
o meu amor nunca falhou.

Mas vejo agora vindo a cólera divina da Vida,
invencível:
o bicho bravo do Existir.
E que posso eu
quanto a esta entidade estrondosa?

Não posso.

Game over, mon ami. 

A luta cansa,
os anos danam,
é tudo um vazio enorme
preenchido somente por uma inutilidade fatídica.
Um vácuo expansivo alarga-me os ossos 
e perfura os meus órgãos já cansados.
Machuco-me com os ecos de muitos golpes,
dói demais o peso de ser.

Restou-me a resignação derrotada dos quebrados.
Se antes pude me resgatar,
vejo-me hoje ante lentes de exaustão.

Que faço eu agora
se a salvadora de minha pátria finalmente falha?

Vencida pelo caos,
perdi a guerra universal travada contra mim.

Escondo-me sobre os escombros.
Também eu virei ruína. 

Sal de saudade

Chorei.
Quis 
— em vão — 
que voltasse tua luz 
animando com claridade os céus cinzentos da praia insípida de meus dias.
Em meu pranto de saudade,
fiz lágrimas tão salgadas quanto tua pele de mar, 
querendo ter a aproximação mais exata do teu sabor de novo entre meus lábios, meu sol.
Só pela delícia tortuosa da ilusão de te ter mais uma vez, meu amor. 

Carta a um amante invisível.

Minha alma cansada reencontra a poesia: você me fez querer escrever. Porque é grande o que sinto para que esteja marcado somente em mim, porque é mui bonito para ser esquecido, porque merece ser exibido. Reacendeste minha arte, meu bem, meu querido, meu amor; morri por séculos e, nas trevas impunes de minha noite milenar, sonhei contigo sem te saber.

Na extenuante expectativa da tua chegada, previ teus beijos de vida em sonhos ansiosos, conheci noutra vida o fogo castanho de teus olhos que abrem agora o breu de meus caminhos passados.  Este amor onírico repousa num ponto sereno, distante; tênue linha entre o afeto brutal dos humanos e a perfeição divina — e por ser tão difícil tocá-lo que eu, cheia de vícios pelo trágico platonismo, o quis desesperadamente para preencher as lacunas do eterno.

Esperei por ti sem te conhecer. E finalmente ressuscito, finalmente o encontro de luz. Coloca-me nos eixos com a força do teus braços que me oprimem de paixão, encaixa minh'alma no espaço fértil entre teus lábios; recria-me em ti. 

A saudade do impossível.

Cruéis sensações mordem-me a boca — uma vontade doce que rasga a garganta, uma impossível volúpia que estonteia-me os sentidos... Numa adoração ilógica e com estúpido saudosismo, bem senti teu beijo perdido no vão infinito de meus lábios, bem ouvi a beleza das tuas palavras mirando-me os olhos.  Eu quis a calidez de tuas mãos incinerando a fragilidade do meu coração. 

Desejei que me coroassem rainha do tempo, e eu poderia viajar pelos ares em sentido oposto ao futuro; e eu felizmente buscaria a ti, meu desejo, e voltaria à dança quente de teus lábios, e aprisionaria-me por horas eternas no meigo enleio de teus braços, e estaria para sempre no inebriante fogo fátuo daquela paixão de um átimo.

Contestação.

Sartre errou. Não, não são os outros. O inferno somos nós. O que é o outro se não uma extensão do que é sou eu?  Eles dependem fatalmente de nós; os formatamos e montamos na vastidão dos espaços mentais, nós os fazemos e desmanchamos à nossa própria imagem. Errôneo fazer distinção. O que  há entre o que vejo no outro e o que encontro em mim é uma linha que, de tão tênue, quase inexiste. O outro é um reflexo exato de suas próprias falhas, das suas dores, desejos, frustrações, amores.  É fácil apontar para frente, mas bem analise e veja: está dentro.

A sensatez do poeta.

calo os olhos
e acendo a boa clareza das visões do coração
que assim vejo melhor

Desencaixe.

Já não sei lhe dizer se é o mundo muito belo e muito bom para que eu nele persista,
ou se eu mesma por demais expandi e perpassei as vulgaridades desta Terra
ou se somos ambos corpos universais excessivamente trágicos para ousar a existência;
sei somente — como sempre soube —
desta doída sensação
de não-dever
de não-estar;
nunca soube onde comecei
não sei vou parar.

Amante.

escritora?
não.
eu sou a outra da literatura. 

a amante ábdita
negada
omitida
abandonada ao surgir do dia

(o nosso amor é um segredo que não confesso nem a mim)

buscada no esconderijo silencioso da noite por puro regalo;
sou usada,
como serva;
submissa e toda dependência,
inteira dada
ao serviço profético da palavra.
não sou criadora
— sou criatura.



Páginas.


Você começa a ler a obra sendo uma pessoa; quando a termina, já se fez outra completamente diferente. Um livro é uma arma.

Açúcar.

melífluo
como as frutas de um paraíso outrora sonhado,
adultera meu sangue morto com teu néctar edulcorado;
doce como açúcar
enlouquece meu palato.

(tens a doçura de um amor ameno
mas és forjado em puro veneno)

Platônica

 vi no espelho a platonicidade de minhas paixões veladas.

Fevereiro.

Fiz da dor confete multicor pra enfeitar minha folia; não há nada de mau que valha a pena nestes dias.

A cidade treme numa linha tênue entre a perfeição do caos  compartilhado e o júbilo de uma paz impura. As ladeiras são fatalmente abraçadas pela beleza da euforia geral; a multidão arde num ímpeto há muito tempo velado, guardado por eternos meses, que explode pontual no soar de fevereiro com suas festas agitadas pelo fogo da espera. É carnaval — o ápice dos dias, o orgasmo do ano. Toda a gente coroada com auréolas de diabo, todos vestem chifres de anjo. Eufóricos, incaláveis, são todos reis. Infestados por uma paixão insustentável, movidos pelo desejo apressado de alcançar a alegria inédita que habita exclusivamente os dias quentes de carnaval; energia peculiar e muito única que paira sobre as multidões, uma sofisticação democrática que encaixa-se em todos e ninguém ousa ignorar —  beleza criminal que fortifica o todo, torna o povo mais povo, a gente mais gente.

A embriaguez das ladeiras murmura um pedido irresistível e abraça a todos que ousam entregar-se ao pecado glamouroso das ruas despertas — é carnaval. A cidade torna-se um arabesco de contrastantes movimentos. Beijos vulcânicos irrompem vorazes entre lábios ardentes, paixões fátuas crepitam e alastram-se como chamas. Uma euforia inconsolável. É carnaval. Almas solares, corpos acesos. Manhãs infernalmente belas, tardes de um tesão de bicho. As noites não dormem. O dia não cessa. Tudo lampeja e queima. É carnaval.

Olinda — mãe do carnaval, cerne de toda a cor —  tem cheiro de axé e de felicidade. O ar transmuta-se em puro som; é tudo frevo, o samba chama, os becos gritam. Carnaval, potência vital — flutua pelas ruas, contagia o mundo, transforma tudo que há. Edifícios transmutam-se em impecáveis aquarelas ilimitadas, o cinza do concreto é colorido pela profunda paixão humana; tudo é embelezado por um fulgor imprescindível, tudo é vivo, tudo é novo. O país inteiro eleva-se e torna-se distante; ilha de música e genuína glória, vão-se embora as mazelas da vida ordinária. Multiplicam-se por todos os cantos novos encantos. Carnaval é expurgo. Leva em seus ritmos a sujeira do mundo. Transforma. A tudo renova: só há espaço para o que ri, o que brilha, o que vibra. Sob a chuva de serpentinas, eu mesma viro outra; mais clara e iluminada, inteira transformada pelo sol dourado dos céus profanos de fevereiro.




Olinda
Tens a paz dos mosteiros da Índia
Tu és linda
Pra mim és ainda
Minha mulher
Calada
O silêncio rompe a madrugada
Já não somos aflitos nem nada
Minha mulher
Tu voltas
Entre frutas, verão e tu voltas
Abriremos janelas e portas
Minha mulher

Pulsar.

Ainda bem que há eternamente o que se procurar. Ainda bem que o mundo é grande e que sou pequena, e que dentro da finitude efêmera da vida cabe uma imensidão de tempos, e que possibilidades infindas nascem e morrem todo instante, coloridas e inquietas como fogos num céu festivo. A existência move-se e agita cá dentro e lá fora, e seu calor quase amorna, mas não se esvai. E há a alma que não passa, e há o peito que não cessa, e há a infinitude imorredoura do cosmos para me abrigar.

Que bom que sofro.

Se reconheço a dor, é porque pude outrora gozar de amor; a todos os afetos acolho com o mais tenro respeito. Pois se agora meu peito dói, é porque fui agraciada com o mais solene dos poderes: o de sentir. Ainda bem que vim, que bom que sou. A vida é uma festa que eu não poderia perder.
A ansiedade faz tudo ecoar por muitas direções; o passado insiste, o futuro ameaça, o presente urde. É excesso de bagagem. Tudo exige de mim demais porque a tudo vivo em mil dimensões.

O passado não me abandona —  tenho a nostalgia em mim como um invencível vírus. Minha memória milenar guarda precisa todo vestígio das cores de outrora. O meu peito anacrônico tem a energia de cada pulsar anterior. Vivo na repetição eterna das dores; nada perco — eu não fui ensinada a esquecer. O que tive possuir-me-á pela eternidade derradeira; tudo muda e foge, anda e move, mas deixa sempre um incandescente vestígio na máquina inquebrantável de meu coração.

{...}

Do futuro, sou refém. Observo sua chegada de mãos atadas, tentando, em vão, prever os movimentos que trará; os mistérios tácitos do depois rasgam minha mente como lascas brilhantes de vidro, ferem meu raciocínio, quebram tudo. A expectativa amarga-me a língua —  sou sedenta pelo que vem. Quantos terrores escondem-se na névoa do amanhã? O que me aguarda no silêncio do porvir que guardo entre as linhas de minhas mãos? Quantos caminhos se abrem, quantos momentos espero? E é tão bonito e também tão aterrador o pensamento que vejo-me imersa em suas dimensões...

{...}

O presente me trucida. Quero tê-lo por inteiro, mas quando o toco, finalizou-se e já não é mais; a indomabilidade dos segundos me antecede e não me cabe segurar o tempo com as mãos.  Viver é impossível no agora. Tudo é memória —   até o agora. A nostalgia é um estado perpétuo. A urgência é quase insustentável. Meus olhos pedem muito, minha carne quer mais, mas todo momento é ilusão. E nesse jogo aflitivo, transcendo  a ordinariedade de meus dias.

Os átimos arrastam-se sobre mim, comem como vermes o meu fino ser; atingida pelas implacáveis flechas do tempo, perco-me no espaço —   vivo todos os meus séculos num único instante.


Derrota diária.



Exaurida até os ossos,
os dias carcomem minha carne,
a tirania da vida molesta minha minha paz.

Demanchar de egos.

Mantenho vigilância. Não sobre o outro, mas sobre mim. Especialmente sobre mim. Porque tudo começa aqui.

Hei de primeiro corrigir as bases de meu próprio edifício. Faço-me firme e então nada virá a ruir. Analiso profundamente o que sou, como sou, onde sou; organizo-me dentro de minhas infindas categorias e todo o resto logo se alinhará.

Eu só alcanço o outro por meio de mim.

O que está fora tem início no mais interno de minha individual pessoa. Todas as outras culpas são frações menores da culpa maior: a minha própria.

O problema está no olhar. Como poderia ver limpo com lentes imundas? 

Para que a vida seja boa, limpo os meus olhos, busco a virtude. Minhas mãos entregam o melhor que conheço — fertilizo minhas terras com o bem. Também porque a perfeição cármica me diz que minha colheita depende da qualidade de minhas sementes e que poderei receber tão somente o que dou, mas principalmente porque o bem é tudo que suporto repassar. O peso insustentável de minhas partes estragadas não pertence ao universo — as guardo comigo até que as possa anular.

O que há de podre nas coisas nada é se não um reflexo do que há de pior em mim; a realidade é uma construção feita de espelhos. O mundo vem de dentro. 

Doze de março.

pai,
o aumentar dos anos diminui as possibilidades de palavras que me restam a te dizer. minhas cartas recheadas de clichês tratam sempre do mesmo: são sempre um lembrete do meu infindo amor e gratidão por você. perdoe minha escassez de novidades; palavras são naturalmente falhas e sendo meu sentimento absolutamente intangível em sua grandiosidade, é dificílimo falar qualquer coisa. tudo parece muito pouco.

saiba que habitas a parte mais bonita de mim. você é minha lição diária de amor. amor na forma bruta, mais pura. você é incondicional. incondicional. essa é a palavra que aqui quero frisar: incondicional. é o que és para mim, é o que sei que sou para ti. "... que não depende de qualquer coisa, que não está sujeito a qualquer tipo de condição, restrição ou limitação; incondicionado, ilimitado. em quaisquer circunstâncias, sem discussão. que se faz presente sempre e de qualquer maneira..."

encontro em você abrigo eterno. pouco importam meus pecados, meus vícios e minhas faltas. teu amor resiste. teu amor espera. és uma das dádivas que a bondade cósmica me cedeu e sou eternamente grata aos céus por ter me dado a honra de ser um pedaço teu.

o universo inteiro se anima com tua existência. teu coração é uma relíquia, tua mente é ouro. você é o melhor. muito obrigada e feliz vida.


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O que seria do tempo se os homens não o tivessem inventado?

Escrever é questão de sobrevivência.

Quisera eu saber lidar com as palavras, meu caro; eu não sei. Não ouso as tocar. Elas é que mexem comigo como bichos vivos que atazanam-me a vida, e se não as vivifico, elas me matam.

Minha escrita é dolorida como um parto. Tem a substância trágica de minhas vísceras doentes. Estas palavras saem-me cheirando a sangue, pesadas de uma vida trêmula; a acidez de minhas letras dissolve o papel. O que digo tem o intragável sabor dos fatos, o meu som não é bonito; minha literatura é mero expurgo. Não é pela arte, eu não conheço a estética. Eu nego a poesia três vezes. É por mim, tão somente por mim, dentro das embaçadas qualificações deste meu eu perdido dentro de si. Por este desespero altivo de meus neurônios decadentes. Pelo meu espírito que arde ansioso na agonia espinhenta de dizer. Pela diabólica necessidade de trancafiar a realidade em palavras. Pelo vício em transformar.

Minha literatura é desconsolo. Escrevo de olhos fechados, num surto; é pura loucura da alma, mon amour. Não vejo as palavras e nesta escuridão elas me encaram e me fazem refém; sou coagida. Minhas palavras são denúncia. Eu só escrevo para não morrer.

Feitos.

e que esteja em meu epitáfio
— simples como é a vida,
fátuo como é a morte —
o registro perpétuo
do melhor dos meus feitos:
amou.

escrito concisamente,
um dito muito preciso.
a denúncia indelével
vestígio final
de meu crime mais perfeito:
amou.

diga isso
e nada mais precisará ser dito.

Conselho.

Que não deixe-se a luz apagar. É preciso estar atento à maldade astuta do mundo; é preciso defender o próprio coração. É preciso ser mais áspero e mais duro; é necessária a força para tomar de volta, a petulância de roubar da vida a própria vida — lambuzar-se da amargura deste mel, perder-se na delícia deste fel. 
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olhos teus
os deuses de minha paixão

Youth.

A juventude brilha em suas vozes histéricas e seus passos pejosos, com seus copos cheios e seus corpos virgens, em espetáculos terríveis e dramas líricos. Incansáveis em suas danças, irrefutáveis em ideologias, impecáveis em seus vestidos, trajados em prata. Não temem o amanhã —  simplesmente não o conhecem. Moram na eternidade fervente do hoje, na certeza do sempre. Andam pelas ruas do infinito.

A festa lateja. Um casal franzino perde-se num ósculo flamejante, escondido entre as cortinas e a parede; espere e veja: logo surgirá entre os lábios cálidos um trêmulo "te amo". Não suspeitam das nequícias veladas que escondem-se no queimar da paixão — o verão vira inferno. Um vulto agita-se nos poucos metros quadrados da sala mal iluminada; entre saltos e giros, ri consigo, perde-se nas vibrações pulsantes do bailar único que movimenta seu corpo; não precisa de mais nada, tem a música. Amigos uivam e gargalham. Será que imaginam o que os anos farão? São muitas faces e todas têm a mesma cor: cor de vida.

A juventude vive incansavelmente. Precisa de mais. Quer tudo. Eles consomem o presente numa ansiedade faminta de quem insanamente deseja a vida: não ousariam perder um segundo sequer deste curioso espetáculo que acaba de começar; logo as cortinas estarão a se fechar. Riem desesperadamente. Choram infinitamente. Amam fatalmente. Não entendem. Estão muito ocupados com a hiperatividade urgente que incendeia o peito adolescente. Não querem o labor demorado da teoria — precisam da prática. São diamantes brutos e policromados, pesados, diversos e rutilantes, valiosíssimos — sequer suspeitam, mas serão tristemente lapidados aos golpes impiedosos da brutal experiência. Um piscar de olhos e foi-se a vívida paixão fulminante destes anos dourados. Infelizmente transformados. Envelhecer amarga os gostos, apaga as cores. Os anos passam e consigo arrastam algo bom, importante, essencial; um ponto de força, qualquer coisa energética que deveria ser constituição, crucial como a água no organismo, mas desgraçadamente se esvai, enfraquece pelo o cair das décadas. Este pequeno momento tem a fragilidade de uma pétala; quebra-se, morre. Fatalmente perde-se este movimento próprio, tal potência única. O tempo é ladrão. Furta silenciosamente esta joia de nosso coração. Torna pedra a carne, amarga o vinho da existência.  Amadurecer é estragar; a juventude é a doçura antes da putrefação, instante iluminado que precede o precipício apagado e solitário do cinzento ser adulto.

Arte {II}


Há arte em cada pedaço do absurdo deste mundo que piso. Não é a natureza a mais pura expressão da estética perfeita que busca a neurose do artista? O caos cósmico é disfarce, olhe bem: em tudo descansa a mais bela simetria, imaculável harmonia. A ordem universal é implacável; em tudo reside a proporção áurea almejada por um bom pintor.

Tudo é arte.

Não são todas as vozes melodias únicas? Também as paisagens não são mais que quadros vivos. Toda matéria produzida pela humanidade emocionada das mãos dos homens carrega toneladas de inspiração; a menor das criações exige alguma emoção, um tanto de força, a graça de uma ideia. A tudo que toca, o homem deixa um tanto de si. Até mesmo para a vulgaridade um interruptor necessita-se de inspiração. E não é tudo isso também arte, expressão? Há nos menores detalhes uma nuance artística.  E ousa dizer a voz de artista que sussurra dentro de mim: se tudo é arte, nada é — a generalização abole as nuances. Arte como ato parece não existir. Seria pura substância, essência, catastrófico deus. Onipresente, onipotente. Não é coisa, não é fato; é espírito, inexplicável como  uma deídade. 

Fatalidade ancestral.


Minha mãe andou só. Com passos firmes e ar sublime. Loba. Venceu demônios, reverenciou triunfos. Vigorosa e com o riso irônico de quem perpassa o inimigo. Mas só. Assustadoramente só.

Há antes de si uma linha toda trágica que poderia justificar os fatos. Sua mãe não pôde sequer ser viúva. Não foi nada. Desconheceu o amor, fugiu de alegrias. A opacidade em seus olhos de sertaneja a entregava: encarcerada em si, não viveu — foi tão somente arrastada, empurrada sem qualquer cuidado à desgraça abismática da vida. 

A mãe de sua mãe encerrou seus dias na escuridão frígida de um lamentável chalé; viúva, inatingível, foi-se em mortalhas negras. Deixou o mundo carregando sua cruz: o luto.

A solidão parece constituir o gene insondável que corre em meu sangue. Minhas mulheres não conheceram o amor.

Mas eu não.

Eu fujo.

Eu tenho o espírito vivo de minhas palavras como tenra companhia. Sento-me agora na mais calada resignação; tenho a presença da folha e da tinta, sentam-se comigo mil versões de mim. Eu sou minha melhor amante. Tenho-me profundíssima amizade. Da ancestralidade de quem me antecede, herdei também a força. E com tal força lapido a dureza da solidão, com a paciência de quem trabalha com ouro: a faço leve, dispenso os ônus; eu a maquio com cores melhores, pincelo tons mais brilhantes — transformo em solitude. 

Não-romance.



Enxergo-te na confusão do espelho: tenho-te espalhado por mim inteira. Escreveste as linhas de minha face, desenhaste o que fui — bem vejo tua marca no reflexo turvo destes olhos claros. Tenho digitais marcadas como queimaduras minhas, feitas com a brasa acesa de tua virilidade: como te apagar? A névoa trágica de tua masculinidade participa agora de minhas curvas de mulher; imerso em meus poros como um perfume barato, inerente a cada passo, não te desprendes jamais. Exauro-me corpo e mente em tentativas vãs de catarse. Nada te anula de mim.

A doçura indigesta do que és perturba meu sistema e eu te vomito do meu estômago só pela tortura de ter de te mastigar de novo. És veneno: contaminaste todo meu organismo, viciaste minha boca com estas substâncias dolosas. Erva daninha: tomaste todo meu território. E agora? Eu imploro, num sussurro desesperado: sai daqui. Fizemo-nos mistura homogênea: como te afastar? Irremediavelmente ligados, tragicamente encaixados — preciso tirar-te de mim.

Sofro em riso com a solidez do teu afeto. Regojizo em nossas dores, cheia de ardores; como súdita — cega em saudade, perdida de amor —, eu adoro os teus velhos pecados. Contigo amo sangrando, gozo chorando. Minhas chagas abertas alegram-se ao açoite de teus dedos. A suavidade fere, este afeto dói; eu não quero a paixão arrependida, o carinho dos desesperados — eu não quero, mas eu preciso. Preciso?

As tuas mãos pesam e eu enlouqueço em um masoquismo escravo. Os olhares me sufocam. Este amor incomoda, irrita. Tuas arestas ferem minha pele. O magnetismo enlouquece-me o pensar: nenhum controle. Eu quero ir, mas não há maneira. Tu és ímã — arrasta, me cola, me junta. Eu volto.

Pressinto-te até da lua, mas não suporto tal presença. Eu não posso. Padeço ao peso tóxico de teu ser mas não aceito o vazio pasmo de tua ausência — como compreender? Muito próximo, não o enxergo; se me deixas, eu nos perco. Se te afastas, arrastas consigo um fragmento essencial de mim; mas contigo, já não sou. Qual a distância correta destas matérias? Qual a forma certa deste amor?

Últimas leituras de 2018.

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley 
Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford. Essa é a visão desenvolvida no clarividente romance distópico de Aldous Huxley, que ao lado de 1984, de George Orwell, constituem os exemplos mais marcantes, na esfera literária, da tematização de estados autoritários. Se o livro de Orwell criticava acidamente os governos totalitários de esquerda e de direita, o terror do stalinismo e a barbárie do nazifascismo, em Huxley o objeto é a sociedade capitalista, industrial e tecnológica, em que a racionalidade se tornou a nova religião, em que a ciência é o novo ídolo, um mundo no qual a experiência do sujeito não parece mais fazer nenhum sentido, e no qual a obra de Shakespeare adquire tons revolucionários. Entretanto, o moderno clássico de Huxley não é um mero exercício de futurismo ou de ficção científica. Trata-se, o que é mais grave, de um olhar agudo acerca das potencialidades autoritárias do próprio mundo em que vivemos.

A verdade é que fui com muita expectativa à obra, por se tratar de um clássico. Esperei um enredo envolvente e paralisante, totalmente extraordinário. Mas, bom... Não é bem assim. É uma obra muito boa? É, sim. Mas há alguns poréns. Tinha tudo para ser impecável por sua história, que poderia ter sido trabalhada de forma melhor por Huxley. O próprio autor parece reconhecer isso, no prefácio de todo o texto. Particularmente, não me dei bem com a fluidez da leitura e com sua linguagem, que apesar de simples, não me cativou. Parece vazia. Muitas vezes, o livro dá voltas demais, fala muito sem dizer nada. Como já dito, é uma obra boa: um clássico não é um clássico à toa. Tenho minhas objeções, mas ainda assim, considero uma leitura necessária. Inteligente e reflexiva, nos acrescenta como pessoa e traz consciência sobre o mundo. Assim como outras distopias, nos dá a terrível sensação de prognóstico. É uma visão muito crua e incisiva, mas também muito pertinente. Fala muito sobre a tecnologia excessiva e seu poder aberrante e latente, da moral e da ética, pautas de extrema grandeza atualmente. Em Admirável Mundo Novo, vislumbramos uma sociedade infelizmente possível pelos trilhos que seguimos, mas também possivelmente reversível com o uso da inteligência e, sobretudo, da humanidade, essa coisa que nos habita e que por vezes subestimamos e esquecemos, mas que o livro vem nos lembrar da importância. É essa lembrança, esta reflexão sobre o que é, enfim, a humanidade, que torna a leitura importante, apesar dos pesares.


O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder
Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Moller Knag, garota a quem Sofia também não conhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.
O Mundo de Sofia estava parado na minha estante desde sempre. O livro pertencia à minha mãe, que me deu logo que foi despontando meu gosto pelos livros (ou seja, há bons anos atrás). Já havia dado algumas folheadas nele no passado, e quando o peguei para ler desta vez, nada sabia de sua história: sabia somente que tratava sobre filosofia e eu, que adoro o assunto, decidi dar uma chance para me aprofundar. Meu único e maior arrependimento é não ter lido antes esta obra tão cativante e bem pensada.

O Mundo de Sofia nos dá um panorama muito bom e bem geral sobre a filosofia, servindo de base e de incentivo para que se inicie um estudo mais aprofundado posteriormente. De brinde, temos a aventura misteriosa de Sofia Amundsen e seu mentor Alberto, história que nos surpreende e intriga todo o tempo enquanto descobrimos paulatinamente sobre o mundo filosófico. Além de oferecer um mar de conhecimento de forma altamente didática, o livro também é de uma leitura fluída, gostosa; somos cativados pelos personagens, ficamos presos, sedentos por mais informações  tanto sobre a história em si quanto sobre a filosofia. É um livro muitíssimo interessante, do tipo que deveria ser obrigatório a todos! Abre horizontes, estimula reflexões, ensina muito. Coloca-nos em contato com esse mistério grandioso que é a existência, faz-no exercitar a maior dádiva que nos foi dada: a consciência. Tornou-se, com certeza, marcante para mim. Certamente uma das obras mais importantes para meu desenvolvimento. 


Eu e Outras Poesias, Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos não teve sorte na vida: ninguém o compreendeu, ninguém o reconheceu. Passados 87 anos da sua morte, a verdadeira grandeza do poeta vem à tona com a publicação da 43ª edição da mais completa obra já feita, Eu & Outras Poesias, publicada pela Bertrand Brasil, com 217 poemas. O livro, lançado em 1912, já teve 42 edições.
Embora suas poesias tenham sido escritas há quase cem anos, os temas nela retratados continuam mais atuais do que nunca. A indiscutível força literária de Augusto dos Anjos coloca-o no mesmo naipe de poetas do quilate de Edgard Allan Poe e Charles Baudelaire. Eles introduziram, cada qual em seu país, toda uma temática centrada na dor universal: solidão, amargura, crise existencial e perplexidade diante das injustiças da vida. "Li o Eu & Outras Poesias na adolescência e foi como se levasse um soco na cara... Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor." (Carlos Drummond de Andrade)

Ler Augusto foi uma odisséia. Sempre li trechos seus soltos, pela internet ou em outros lugares; meu pai, grande admirador de sua obra, induzia-me muito a seus poemas, muito falava desse escritor. Não é pra menos: Augusto é, no mínimo, genial. Poucas vezes vi tanta impecabilidade num autor. Pois bem. Decidi, finalmente, agarrar-me a um livro seu. Comecei primeiramente há um ano atrás, início de 2018; pus-me a ler e envolvi-me muito profundamente em sua literatura. Justo por tamanha imersão, não consegui ir muito além da metade. Seu estilo é único e muito denso, o que me causou certo cansaço; não estava no momento certo para a leitura. Pois bem. Guardei o livro. No final do mesmo ano, decidi recomeçá-lo; dessa vez, tive êxito.

Ele parece passear por entre escolas literárias — simbolismo, romantismo, modernismo, parnasianismo... Quem saberia enquadrar tamanha genialidade? — e há uma obsessão por certos temas, cujos variam de acordo com a época. A morte, o sofrimento da mulher amada, o sol, as ciências, a decomposição e putrefação, a fragilidade da matéria, o mistério do espírito, a dualidade do amor. As trevas, a dor, a escuridão. A afetuosidade fraternal, a saudade do pai. Enfim. Cada fase com suas questões, mas quase sempre com a presença de um pesar insustentável, um nilismo duro, um ar trágico. O universo de Augusto é muito próprio, pessoalíssimo.  Ele é mórbido. É uma leitura dolorosa de se fazer, rebuscada, quase indigesta, tanto que a fiz muito lentamente para que pudesse degustar e digerir bem todo amargor peculiar do que li. Seus escritos têm sua marca indelével: poucas palavras e já sabemos de quem se trata. Dentro da métrica clássica consegue ser inovador, oferecer uma experiência única, sinestésica. Os poemas colocam-nos frente a frente com seu espírito — um espírito escuro mas interessantíssimo, estranho, bizarro, inigualável a qualquer outro. É uma honra tê-lo dentre o panteão de artistas brasileiros; gostaria que houvessem outras obras para contemplar sua genialidade (infelizmente, Eu e Outras Poesias é a única do autor).

Dom


Brinco de escritora,

fantasio a verdade.

Tenho poderes sobre a realidade;

na imensidão da poesia

pinto e bordo como bem quero.

Faço luz e alastro a penumbra.

Apago o sol e monto a lua.

Ilegível.

De nada valem os embrulhos e festejos, pouco importa o que te dei no vazio da materialidade; as tenras letras bordadas no silêncio frágil do papel foram meu melhor presente. O que escrevo —  de peito cheio e mãos tremendo, no desespero anestésico do amor — é o que tenho de mais meu. Cada palavra é viva, reflete meu organismo inteiro: tem olhos, boca, coração. O dicionário é minha jazida: cada sílaba vale ouro. Minha linguagem é muito densa para quem não tem nos sentidos também um pouco de delirante emoção.


Não entendes.

No infortúnio de um amor mal-educado, sofro com a apatia de teus olhos analfabetos; não podes me ler. Morro na sequidão inviolada do envelope que não quiseste abrir.

Poesia não-verbal

o sol fazendo-se homogêneo ao mar, fabricando ondas de ouro nas ordinárias manhãs de segunda-feira

o passear espontâneo dos fios de cabelo da menina sob seus ombros magros e nus

o susto que antecede o riso de dentes brancos e boca aberta

as rugas que enfeitam o corpo do homem de muitas décadas

a surpresa reativa dum ato inesperado

as cores que explodem no céu da tarde e partem logo depois para que venha a ebriedade negra da noite

a embriaguez animada da noite do centro, com suas luzes e sua música, sua gente e seu movimento

os pedestres que passam despercebidos

os imensos e possíveis, simples e extraordinários movimentos das mãos

o corpo humano

a música criada pela banda celeste de incontáveis gotículas d'água dançando sob nossos tetos na chuva da tenra madrugada

derme contra derme, língua contra língua

o choro

o corpo dançante e espontâneo na pista, banhado pelas luzes artificiais e ofuscado pela fumaça

a distração calma de quem não imagina estar sendo observado

a surpresa no peito de quem se descobre dominado pela paixão

unhas coloridas

cafuné

o riso vencedor de quem conquista o que quer

(...)

(em qualquer coisa cabe poesia
basta encaixar)

Relato trêmulo de uma existência desencontrada

Lembro-me de, ainda muito pequena, descrer do mundo. Nasci cheia de interrogações. 

— Eu estou sonhando? — perguntava a meu pai cheia de suspeitas, como quem faz uma seríssima investigação. Sua resposta não passava de um riso. Eu, outrora extasiada com as possibilidades, neste momento trancava-me em frustração. Tanta ansiedade me causara a realidade que, por vezes, caía num pranto agoniado e quase sufocava com as toneladas de perguntas que inquietavam-se em minha garganta. Havia na criança a urgência de respostas, queria desesperadamente entender; era criminal negar-me os porquês. Como podia uma pessoa — vendo, ouvindo e sentindo, tanto quanto eu —  levar com tamanho desdém o espetáculo da existência, não ousando o investigar, o apreciar? Alguém havia de me explicar.

Nestes anos inquietos, indagava eu todo tempo sobre as cores, as flores, os sons e as vozes; "e se este azul for verde?", "sinto ou penso que sinto?", "o que movimenta meu corpo?". Por vezes, cria estar sonhando, vivendo num delírio dentro de um delírio, experimentando um truque, um jogo. Via sobre mim tantos olhos coloridos; assistiam-me numa vigia atenta. Parecia ser personagem duma trama, passível dentro da epifania de algum gigante. Cheia de espanto, encarava com enormes olhos o universo embaçado que me cercava: era tudo um grandessíssimo absurdo. O passar dos ventos, o movimento dos pássaros. As tantas espécies, os milhares de gente. A imutabilidade do passado, a indomabilidade do tempo. Nascer, morrer. O piscar dos olhos e a vibração da voz. Não é mesmo isto tudo impressionante? Via dentro de cada coisa uma mecânica magnífica e muitíssimo minuciosa; muitas forças caem sobre tudo, muitos fios emaranham-se para compor a delicadíssima natureza. Quis destrinchar cada partícula da vida. Incontáveis perguntas me perseguiam; minha fértil mentalidade fora o perfeito habitat para demoradas especulações. A toda coisa reagia com o absurdo estranhamento de quem enxerga o maravilhoso. Admirava com o peito cheio de louvor, mas nada compreendia do mundo em que pisava; assim, fiz-me estrangeira. 

Rememoro tudo isso, incomodada ainda pela farpa da perplexidade, para dizer que este espírito jamais se foi. Muitos anos passaram desde a primavera de minha inocência, mas não pude me acostumar com a vida; ninguém jamais deu-me as respostas. A ciência diz-me muito pouco — quase nada. Mil filósofos tentaram, em vão, me falar. Leituras foram-me improfícuas, mal ouvi os discursos perdidos e os dizeres confusos de quem tentou colocar-me nos eixos: nada jamais me explicou a realidade. Suspeito que esta exista. Suspeito principalmente que eu exista. E guardo — como tudo meu guardei nessa vida: cheia de cautela e com muitos ciúmes — toda dúvida; foi o que me restou. Infindas interrogações, nenhum ponto final. Passo como um vulto, sou espectadora. Tento em vão me acostumar. Não reconheço as veredas desse planeta; pareço ter vindo de longe. Levem-me a Marte, ao Japão ou ao inferno; pouco importa-me o destino, mas me levem. Eu não sou daqui. 

Literatura.

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No silêncio gélido da noite,
na solidão do cômodo quente,
abro o livro
- um espelho
(o melhor dos amigos).
Séculos nos separam,
ideias reconectam.

Reconheço-me nas palavras de outros,
eu estou naquelas páginas;
com a surpresa da descoberta
vejo-me impressa;

Da solidez das páginas amareladas
saltam espectros imateriais
e meu quarto vazio enche-se de vozes;
meus filósofos falam de mim,
os escritores aconselham os meus sonhos;
toda a gente sabida dos meus exemplares
todos os autores de uma vida
vêm fazer-me companhia.

Eu sei do desconforto Clarice,
eu vejo a verdade de Kant.
Reconheço-me na dureza de Machado,
bem compreendo a mutabilidade de Heráclito.
Tenho em mim o afeto de Gabo,
deliro com a crueza de Guimarães;
os medos de Poe também são meus.
Eu quero a fatalidade de Pagu,
mostrem-me o Mundo de Sofia;
vejo-me na poesia tropicalista,
os anseios do modernismo parecem os meus.

Já não sei se leio ou sou lida;
só a literatura me compreendeu.

Ano novo.


O céu explode em luzes; tudo inunda-se em som e cor, tudo cheira a riso e fé. Os fogos anunciam mais um aniversário do planeta; o reinício de um ciclo faz o mundo crer na magia do novo. Esta insistente esperança flutua soberana como uma ave branca sobre todas as cabeças nos primeiros instantes do ano solar: é irresistível deixar-se acreditar. Numa ingênua expectativa, evoco em voz muito baixa o melhor. Anseio novas tramas. Eu, que creio energeticamente no poder divino das palavras, escrevo e chamo o mais doce para este ano. Que venha tudo de maior. Quero a liberdade. Porque liberdade é também paz — e minha busca incessante é pela paz. Quero tão somente ser, num delicioso vazio de impulsos desesperados, num estoicismo confortável. Não inquietar, não esperar, não depender. Que o cosmos me guie. Sujeito-me às forças do universo sem maiores represálias: que eu simplesmente aconteça.

Eu quero beijos e eu quero vozes. Quero sons e quero toques. Eu quero rua. Quero tintas, quero letras. Quero flores e quero dores.  Eu quero o amor — porque há neste enigmático presente todo o sentido da existência. Eu quero vida.

Vislumbro dias frescos e intocados, mais claros e mais azuis, cheios de chances e boas horas; anseio belos caminhos. Minha alma de borboleta se atiça; já não caibo nesta caixa estática, me é pouco a constância do chão. Quero outros jeitos, outra forma. Quero a imensidão dos ares, voar por novos meses, quero explorar cada segundo. Quero a essência da mudança. O quadro manchado da vida torna-se tela branca: é hora de reinventar.

Velho, novo.

Eu não tenho palavras para o que foi 2018. Ainda assim, tentarei, já que o conjunto dos doze meses que passei são dignos — e como são! — de nota. Além de tudo, já me é tradicional escrever sobre os anos que vêm e vão. Esse ano, muito descobri. Acho que foi meu ano da descoberta. Do mundo, dos outros e de mim — eu sou sempre minha jornada mais intensa.

Eu ressignifiquei e reaprendi a solidão. Acho que todo ano passo por isso, cada vez de uma nova forma. Mas tudo bem. É sempre um processo válido que, no fim das contas, eu gosto. Essa sensação peculiar me perseguiu por toda a vida: sou só. Estive sempre só. Nunca pertenci e penso que jamais pertencerei. É uma emoção forte; ergue-se a minha frente como um gigante, não tem rosto nem cor, mas sua aura assusta. Assusta porque é cheia de entrelinhas, porque é mistério, porque é difícil; mas não necessariamente é mau. É meu monstro de estimação; domestico, o faço amigo, transformo. Apesar dos pesares, amo a solitude.

A ansiedade amargou minha língua muitas vezes, mas não pôde me vencer — que orgulho. Tanto orgulho tive de mim esse ano. Da força que tive, de quem me construí. Compreendi muitas coisas: vi o que devia ou não estar, os porquês de ser. Tenho tentado arrumar a casa. Dei fim a muitas coisas antigas que já não me cabiam mais e iniciei novos ciclos onde me encaixo lindamente. Acabei um relacionamento de anos e houve nisso um impacto em mim que me vi perdida. Talvez eu ainda não tenha me achado, mas tenho aberto caminhos. Os anos pesam como chumbo e a ausência é um fardo difícil de ignorar mas, bem, há sempre formas de passar pelas vielas apertadas dessa vida. O amor se transformou. Com as peças desse namoro descontruído, surgiu uma amizade muito bonita com meu ex futuro marido.  Outras relações se foram também. Várias se transformaram. Algumas ficaram. Muito aprendi sobre amizade, esse afeto tão bom e poderoso, essencial. Sem amigos sobrevivemos, mas com eles, vivemos tão melhor. 

Pessoas importantes entraram em minha vida e me trouxeram luzes inspiradoras. Eu conheci muita gente e gostei disso — o humano é o meu bicho predileto. Novas bocas. Novos corpos. Novas vozes.  Vi o por do sol pela primeira vez (o espetáculo mais extenuante que já presenciei). Descobri a noite. As palavras me serviram de leito, aconchego. Li, escrevi. Eu criei muito e vi na escrita tantas possibilidades que me salvaram e me revelaram. Bati meu recorde: treze livros em um ano. Poderia ser mais? Sim. Mas já é algo. Os meus autores favoritos nunca foram tão bons amigos. A literatura foi um fôlego, um sopro. A arte tem um poder indizível. 

Outro lado muito ativo em mim foi o político. Votei pela primeira vez. Coincidentemente ou não, a política — coisa que sempre me atraiu — foi muito presente em meus dias e em minhas pautas. Foi interessantíssimo me conectar com esse lado que tem tanta importância. Cada mínimo movimento de nossos corpos trata-se de política e se você toma atenção para este fato, tem muito a perder. Fui a uma manifestação, inclusive. Arrepiei-me com o poder do coletivo. Foi uma experiência muito válida. Há uma beleza imensa na luta pelo que se acredita, uma ideia é uma potência energética — e uma ideia exponenciada é de um poder inigualável. E é nesse poder que me apoio para ter fé no amanhã desta pátria amada, Brasil. Um castelo há de ser erguido sobre as ruínas desse caos político-social. É uma questão de conhecimento. E conhecimento é questão de tempo. Resta-nos optar por agir e reagir. Tenhamos paciência. Há de se ter fé, também. Fé em tempos de luz. Sei que virão. 

Descobri o poder de meditar. Ainda tenho muito o que aprender e exercitar, mas isso muito me beneficiou. A meditação constrói para você um campo minado no meio da insanidade do passar do tempo, da ferocidade da ansiedade — este fantasma nos meus dias. Meditar protege. Esvazia do inútil para dar espaço ao importante. Meditar abre caminho pras verdades; no silêncio, este que tenho aprendido a manusear, distanciando-me de todos os ruídos que confundem e distanciam o Eu do corpo, muito descobri. Falar é vão. Só o silêncio revela.


Achei em mim pontos fracos, imaturos. 2018 doeu. Mas esta dor me fez buscar rotas para a cura. Eu me perdi. Mas tenho me encontrado; cada dia um pouco mais descubro como ser mais eu e me mino das outras coisas. Quero crescer. Desesperadamente quero viver. E acho que é por isso que 2019 tem me empolgado. Há no meu coração essa necessidade de recomeço que parece surgir com o início de um novo calendário. 


Apesar do réveillon ser uma das minhas datas favoritas do ano — se não a preferida de todas —, nunca tive no ano novo o alicerce de mudança. É que eu sei que a mudança está dentro, ocorre aqui, prontíssima para implodir assim que eu decidir. Não é necessária uma data para isso; basta um movimento de minha escolha. De qualquer forma, 2019 em particular parece guardar qualquer coisa que eu não saberia dizer. Como sentir o que habita o imprevisível futuro? Não sei. Sei que estou sentindo. Pouco tenho de determinista: creio no poder de escolha, de construção (e desconstrução) do futuro. Portanto, fico curiosa com 2019. Pois, pela primeira vez, a sensação que tenho é que o ano está todo construído, esperando que eu o adentre e passeie pelos seus meses. A vida até então parecera jogo, brincadeira.  Agora parece começar a ficar real, sólida, séria. Virei gente. Não sei. Aproximo-me do novo ano: não sei se ele vem ou eu vou, mas logo o alcançarei. E não tenho certeza alguma para ele — ainda bem; que os deuses me livrem da certeza, sou uma amante da surpresa —, mas tenho desejos, ânsias. Pois bem. Que seja meu ano da produção. Eu quero ser produtiva, ainda mais ativa. Quero dar vida à minha arte — minha palavra, minha fotografia. Quero pintar — mesmo mal, mesmo de forma infantil. Para mim, faz sentido, então eu quero. Quero estudar muito, aprender muito, me dedicar com afinco — lembrando que eu nunca vou conhecer tudo e fazer dessa consciência minha catapulta para que, mesmo não alcançando o tudo, eu consiga o máximo possível dentro dos meus dias humanos. Preciso dedicar tempo às matérias exatas que ignorei por toda minha vida letiva mas que agora merecem atenção. Espero passar na faculdade que eu tanto almejo há tanto tempo e iniciar, assim, a trilha que sempre desejei e percalçarei por todo resto minha vida. 


Quero ler mais, ainda mais; que a literatura me engula em todas as suas formas. Assistir bons filmes, descobrir músicas. Ir mais ao cinema. Entrar em contato obras que me deem o prazer de viajar para outro mundo mesmo estando imóvel. Quero ler mais, ainda mais; que a literatura me engula em todas as suas formas. Quero dar início ao meu livro (mesmo que só no campo das ideias. Ele precisa começar a existir). Quero estudar mais alguma língua. Quem sabe eu não possa também aprender algum instrumento, finalmente? Muito quero a arte. Quero conhecer gente e explorar os cantos desse mundo. Mas, sobretudo, quero conhecer a mim. Seguir desvendando o que sou, o que tenho, o que me tem. Chegar perto, bem perto, me beijar e amadurecer esse relacionamento tão essencial que é o meu comigo mesma. Espero aumentar minha rotina de meditação, conseguir meditar com mais qualidade, por mais tempo. Quero também enfeitar minha pele com as tatuagens que planejei e dar sentido ao libertéque pretendo me pintar me ver cada vez mais livre, dependendo de menos, sendo mais. Quero calma; dar fim aos exageros, aos desesperos, às compulsões. Quero estar em paz. Que os 365 dias que estão vindo sejam de plena luz.