a l m a r a d a

Youth.

A juventude brilha em suas vozes histéricas e seus passos pejosos, com seus copos cheios e seus corpos virgens, em espetáculos terríveis e dramas líricos. Incansáveis em suas danças, irrefutáveis em ideologias, impecáveis em seus vestidos, trajados em prata. Não temem o amanhã —  simplesmente não o conhecem. Moram na eternidade fervente do hoje, na certeza do sempre. Andam pelas ruas do infinito.

A festa lateja. Um casal franzino perde-se num ósculo flamejante, escondido entre as cortinas e a parede; espere e veja: logo surgirá entre os lábios cálidos um trêmulo "te amo". Não suspeitam das nequícias veladas que escondem-se no queimar da paixão — o verão vira inferno. Um vulto agita-se nos poucos metros quadrados da sala mal iluminada; entre saltos e giros, ri consigo, perde-se nas vibrações pulsantes do bailar único que movimenta seu corpo; não precisa de mais nada, tem a música. Amigos uivam e gargalham. Será que imaginam o que os anos farão? São muitas faces e todas têm a mesma cor: cor de vida.

A juventude vive incansavelmente. Precisa de mais. Quer tudo. Eles consomem o presente numa ansiedade faminta de quem insanamente deseja a vida: não ousariam perder um segundo sequer deste curioso espetáculo que acaba de começar; logo as cortinas estarão a se fechar. Riem desesperadamente. Choram infinitamente. Amam fatalmente. Não entendem. Estão muito ocupados com a hiperatividade urgente que incendeia o peito adolescente. Não querem o labor demorado da teoria — precisam da prática. São diamantes brutos e policromados, pesados, diversos e rutilantes, valiosíssimos — sequer suspeitam, mas serão tristemente lapidados aos golpes impiedosos da brutal experiência. Um piscar de olhos e foi-se a vívida paixão fulminante destes anos dourados. Infelizmente transformados. Envelhecer amarga os gostos, apaga as cores. Os anos passam e consigo arrastam algo bom, importante, essencial; um ponto de força, qualquer coisa energética que deveria ser constituição, crucial como a água no organismo, mas desgraçadamente se esvai, enfraquece pelo o cair das décadas. Este pequeno momento tem a fragilidade de uma pétala; quebra-se, morre. Fatalmente perde-se este movimento próprio, tal potência única. O tempo é ladrão. Furta silenciosamente esta joia de nosso coração. Torna pedra a carne, amarga o vinho da existência.  Amadurecer é estragar; a juventude é a doçura antes da putrefação, instante iluminado que precede o precipício apagado e solitário do cinzento ser adulto.

Um comentário:

  1. muitas partes desse texto me deixaram angustiada. porque, depois que passei dos 25 entrei num estado de autoavaliação, auto(re)conhecimento, seja lá o que for... e as coisas vão mesmo perdendo essa efervescência toda, queiramos ou não. podemos até guardar a essência da juventude, mas nossos corpos também têm seus limites, então tudo é uma lembrança de um tempo bom (ou não).

    lindo e profundíssimo texto!

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